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Tempo deslembrado

“Sou incapaz de descrever onde fui feliz,

mas sei o que ficou em minha memória”. 

T.S. Eliot. 

***

Conheci um poeta que conseguia lembrar dos detalhes de sua infância distante, mas às vezes esquecia o nome da namorada. O tema Lembrança e Esquecimento é muito frequentado por escritores e poetas. Ninguém mais capaz do que eles para tentar desvendar as estranhezas da memória. O poeta Carlos  Drmmond de Andrade – que nos deu tantos versos memoráveis lamentava não lembrar do que fizera no dia anterior, mas sabia na ponta da língua os nomes das ruas de sua Itabira natal, em Mina Gerais. Mas os poetas sabem como colecionar fragmentos do tempo passado para moldar versos que despertam nossos melhores sonhos e pesadelos.

***

O multi-poeta Fernando Pessoa também era um incansável viajante do tempo e da memória. Ele questionava:

“Meu passado

Não sei quem o viveu. 

Não sei se fui eu mesmo,

Estou confusamente deslembrado

(…)

Não sei quem fui nem quem sou…”.

Os pensadores e filósofos gregos acreditavam que guardar reminiscências não passava de um processo físico. A escola grega discordou, afirmando que a memória não se localiza no corpo, mas sim na alma. Uma visão mística que seria reafirmada por dois grandes santos, Agostinho e Tomás de Aquino. Para eles, a memória é um espaço na alma chamado “palácio da memória”, onde a fidelidadde à memória dos fatos passados determinaria a identidade do Eu.  

E não tardaram em surgir as primeiras suposições de que a memória estava intimamente relacionada à personalidade do indivíduo de acordo com suas experiências vividas.

***

Enquanto caminho por uma alameda forrada de folhas de Outono, me ocorrem lembranças antigas de quem eu era no passado. É o mesmo caminho percorrido muitas vezes, em sonhos recorrentes, herdados de outros tempos. Que termina sempre no mesmo lugar – um banco de pedra na  praça onde eu brincava quando criança. Mas quando chego lá vem a dúvida: será que este banco coberto de folhas amarelas e vermelhas é real ou só existe em meus sonhos atrasados?

*** 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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