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Tempus Fugit

“Sou capaz de descrever onde fui feliz,

mas não sei o que ficou em minha desmemória”. 

T.S. Eliot. 

O poeta inglês escreveu que lembrava detalhes de sua infância no interior da Inglaterra, mas havia esquecido o nome de sua cidade natal. Este é um tema frequente entre escritores e poetas – Lembrança e Esquecimento. Ninguém melhor do que eles para desvendar as estranhezas e alquimias da memória afetiva. O poeta pernambucano Manuel Bandeira-  que nos deu versos inesquecíveis – lamentava não lembrar do que fizera no dia anterior, no entanto guardava pormenores do casarão no Recife, onde nascera 80 anos antes. Poetas como ele sabem recolher fragmentos do tempo passado e moldar versos e frases que despertam nossas próprias lembranças, sonhos e pesadelos.

***

O poeta múltiplo Fernando Pessoa que se dizia um viajante da memória, questionava:

“Meu passado

sei quem o viveu. 

Se eu mesmo fui,

Está confusamente deslembrado

E logo em mim enclausurado flui.

Não sei quem fui nem sou…”.

Desde muito o tema tempo/memória é objeto de estudo por parte de pensadores e filósofos como Platão e Aristóteles. 

No início, se acreditava que a guarda de sensações e reminiscências era um processo físico, teoria refutada pela escola grega. Que apregoava que a memória não se localiza no corpo físico, mas na alma – uma visão que perdurou até a Idade Média. E que seria reafirmada por pensadores como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Em seus escritos, a Memória é um lugar na alma, destinado a conservar a espécie humana, onde a fidelidade à lembrança dos fatos passados define a identidade do “Eu”.  

Esta concepção mística foi discutida por filósofos e pensadores que vieram a segiuir, com a suposição de que a memória está intimamente ligada à personalidade de cada indivíduo, de acordo com suas experiências de vida.

*** 

Muitos dos poetas de nosso tempo seguiram seus antecessores clássicos, romantizando a Memória. Acompanhados dos divergentes, como Bertold Brecht, que escolheu louvar o Esquecimento: 

“Bom é o esquecimento.

Senão como é que 

O filho deixaria a mãe que o amamentou?

Como havia o discípulo de abandonar o mestre

Que lhe deu saber?

Com levantaria o homem de manhã,

Sem o esquecimento da noite que apagou os rastros?”

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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