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Tentar é preciso

Quase um milhão de crianças de sete a quatorze anos fora da escola. É uma cifra inesquecível. O Brasil tem uma nação de zumbis …

Quase um milhão de crianças de sete a quatorze anos fora da escola. É uma cifra inesquecível. O Brasil tem uma nação de zumbis kamikazes nas ruas, debaixo das pontes, atirados nos cantos. Jovens, monossilábicos, sem a menor chance de cometer alguma ação memorável. Fu Lana é quem zumbia naqueles dias de notícias quentes. Tinha uma vizinha que era professora de escola pública, em estrada de chão. Lá, as professoras chegavam de chinelinhos, a pé, pois o ônibus não subia o morro. E ela tinha um aluno pequeno que andava arredio, batendo em todas as demais crianças. Distribuía porrada e se botava, ao menor muxoxo, para cima de suas vítimas. A mãe fora chamada para ouvir um pequeno desagravo, para ser questionada sobre o motivo de tanta violência. Na frente da professora e da coordenadora, a mãe ouvia, ao lado do menino. Em uma reação instantânea, ao final das solicitações para que se observasse o menino em casa, a mãe vira as costas da mão no rosto do garoto, golpe que o joga para trás, derrubando-o. Menino mal-educado! Vai apanhar pra aprender! Os professores acodem, explicam. Mas o furo é mais antigo. A vizinha anda desconsolada. Já são tantos anos nessa vida e as desesperanças são diárias. Uma que outra fantasia a faz idealizar a profissão. Fu Lana pensa: fora ou dentro da escola, no mundo, que diferença faz? Ela, que andava até bem, só não conseguia fugir das más notícias. Não queria ouvir mais nada e vinham outros casos. A menina que chegou marcada no corpo, acompanhada da mãe. Em um misto de aflição e ansiedade, a mãe pergunta: minha filha come bem aqui? Lá em casa só na base da porrada. A professora não quer mais ir trabalhar e Fu Lana não quer mais encontrar a amiga. Nossa heroína descobre que não há lugar em que possa se esconder, hoje, das péssimas notícias. De que vale um sistema político que vai filtrando as boas intenções? De que vale uma economia de muros altos, onde a fronteira entre o que é meu e ninguém tasca chega primeiro? O Ibope diz que no Brasil, na verdade, o povo é que é corrupto. Na política, corrupção é mera conseqüência. Na imprensa estrangeira divulga-se que somos um país de iletrados. Nos Estados Unidos intensifica-se o xenofobismo, na França, esvaem-se conquistas e direitos sociais. Há um eclipse do sol e um brasileiro vai ao espaço. Nas touradas de Madri, o touro continua a ser minoria para o deleite sádico dos heróis de lenços brancos. No afã de alienar-se, de buscar a libertação de seus próprios pensamentos, Fu Lana tenta uma galeria de arte. É hoje! Quer alento ao entrar em uma enorme e chiquérrima construção da cidade, climatizada, com portas pesadas de ferro e cristal, e altíssimo pé-direito. Nem assim esquece o mundo. Vísceras, gemidos, obras, que são questões, só a fazem incomodar. Foi-se o tempo em que somente ela era gauche. Era ela o pé-frio da sociedade. Hoje, quer ser o baluarte do otimismo, da bola pra frente. Quer até o hexa. Quem diria, Lima Duarte, ex-Chatô, hoje se volta contra o poder da mídia. E não se pode nem ter uma casa no campo, com discos, livros e, muito menos, amigos, pois se corre o risco de um assalto mais sério, em lugares ermos. Em Cuba, não há crianças nas ruas, nem mendigos. Mas não há sapatos, camisas, nem mais de uma sorveteria ou produtos industrializados. Além do quê, parece que um dia, ali, terá eleição. Fu Lana daria tudo (sapatos, camisas, sorvetes, produtos industrializados e até eleições) por um arremedo de solução social. Pelo jeito, só depois dessa para melhor. Assim pensam os falcões. Afinal, não ter alternativa não é um privilégio dos mais necessitados. Palavra de ordem da semana, a repetente: xô, baixo-astral! Continuaremos tentando.

Autor

Clo Barcellos

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