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Terapias travessas

Estava cansado dos pesadelos que o atormentavam todas as noites e decidiu procurar um psiquiatra para dar um fim naquilo. O consultório era luxuoso, …

Estava cansado dos pesadelos que o atormentavam todas as noites e decidiu procurar um psiquiatra para dar um fim naquilo. O consultório era luxuoso, com tapetes orientais e belos quadros nas paredes de cores pastéis. Foi uma conversa interessante, mas que durou apenas vinte minutos. O psiquiatra permaneceu impassível enquanto ouvia, mas ergueu uma sobrancelha quando ele falou de seu problema:

“- À noite, quando me deito, imagino que há alguém debaixo de minha cama. Levo horas para dormir e tenho pesadelos. Sinto que enlouqueço, doutor.”

O médico tentou tranquilizá-lo:

“- Não se preocupe mais. Seu caso tem cura. Venha me ver duas vezes por semana e em menos de ano, o senhor ficará livre de seus medos.”

“- E quanto o senhor cobra?”.

“- São cem dólares por visita”, informou o doutor.

“–Vou pensar no assunto e voltarei na próxima semana”.

***

Seis meses depois, paciente e psiquiatra se encontram acidentalmente diante do prédio onde ficava o consultório.

“– O senhor ficou de voltar para tratarmos de seus medos noturnos. O que aconteceu?”, perguntou o médico.

“- Bem, caro doutor, cem dólares por visita é muito dinheiro. São 800 dólares por mês. Nestes seis meses, eu teria desembolsado uns cinco mil. Em um ano, eu poderia levar minha mulher para conhecer Paris. Ou trocar minha caminhonete por uma zero”.

O médico insistiu, mostrando-se impaciente:

“- Mas o senhor já estaria quase curado”.

“- Mas eu já estou curado”, garantiu o homem.

E diante da reação de espanto do psiquiatra, continuou:

“- Sabe aquele bar ali na esquina, perto de seu prédio? Tenho ido lá uma vez por semana, desde nosso último encontro. Peço um uísque duplo e converso meia hora com o barman, o Freddy, que já se tornou um amigo. Ele me curou e estou dormindo muito bem, depois de uma ou duas doses. E pago 12 dólares pelo uísque “on the rocks”, a conversa incluída.

O médico retrucou, algo injuriado:

“- Mas esta é uma atitude nada profissional. Posso perguntar como este tal de Freddy curou o senhor?”

“ – Ele sugeriu cortar os pés da minha cama. Agora, eu tenho absoluta certeza que não há ninguém debaixo dela.”

E, com um sorriso vingador:

“- O doutor não aceitaria uma dose “on the rocks” no bar do Freddy? Eu pago”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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