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Tiane não trabalhará para minhas filhas

Éramos todos muito jovens naqueles anos 80. Eu estava no apartamento de minha mãe, num sábado à noite, aproveitando o momento semanal com a …

Éramos todos muito jovens naqueles anos 80. Eu estava no apartamento de minha mãe, num sábado à noite, aproveitando o momento semanal com a filha. A algaravia cinco andares abaixo informava que algo quebrara a rotina do condomínio de classe média no Jardim Lindóia, na zona norte de Porto Alegre. PMs batiam boca com moradores, entre os quais ponteava Tiane, com idade próxima dos vinte anos, que parecia especialmente revoltado. Eu o conhecia de vista. A mãe, Neli, cumpria alguma tarefa regular no condomínio, e ele próprio já ensaiava biscates como faz-tudo, ofício destinado a quem precocemente tem a ilusão subtraída pelas dificuldades da vida.

tDesci para ver do que se tratava, para desespero de minha mãe e minha avó, sempre dispostas a manter-me a distância segura de encrencas numa idade impetuosa, no que, aliás, foram bem sucedidas. Neste caso, decidi contrariá-las. Ao chegar ao pátio, jornalista com uns poucos anos de carreira, apurei os fatos principais: um homem suspeito de roubo poderia estar escondido nas redondezas. Na dúvida, e sem qualquer evidência razoável, um grupo de PMs não vira qualquer mal em derrubar o portão com a viatura e invadir a garagem do prédio. A indignação era geral, não apenas pelo abuso de autoridade, mas pela arrogância de homens cujas fardas pareciam ter-lhes subido à cabeça. Embora nada tenham encontrado depois de destruir e alarmar, não apenas achavam ter razão, como debochavam e ameaçavam os moradores de prisão por desacato, velho recurso de policiais e magistrados prepotentes.

tIdentificada a situação, percebi que Tiane não tinha qualquer envolvimento especial com o caso. Estava mais revoltado porque seu temperamento não lhe permitia assistir calado a absurdos do gênero. Diante do confronto iminente, busquei forças para tirá-lo dali. Mal nos conhecíamos, e ele era mais alto e mais forte que eu, sem contar a força extra que acomete indivíduos em situação de descontrole emocional. Parte pela força física, parte pela força das palavras, consegui levá-lo para longe da confusão.

tTiane jamais esqueceria o episódio. Contava-o de tempos em tempos, tanto quanto costumava orgulhar-se do fato de que era das raras pessoas de fora da família a quem minha avó materna abria a porta de casa. Dela herdei os palavrões e a rabugice, talvez, mas por certo herdei também o senso crítico e o desconfiômetro. Por medo da violência urbana, ou simplesmente por não querer estranhos em sua casa, Maria Emília não tinha meias-palavras na hora de negar a qualquer um o acesso à sua intimidade. Incontáveis entregadores e prestadores de serviço foram barrados. Tiane entrava sem problemas.

tQuando minha avó morreu, no final dos anos 90, ele continuou prestando serviços à minha mãe e, depois, a ela e a mim. Onde moro atualmente há a mão dele em quase tudo, das persianas às extensões telefônicas, passando pelo encanamento e pelos armários de cozinha. Éramos amigos, além dá boa relação profissional. Tiane era impetuoso, não levava desaforo para casa, tampouco deixava pessoas inocentes serem ofendidas ou ameaçadas em sua frente. Também era de absoluta confiança, honesto e respeitador. Só não aceitava desonestidade, opressão de indefesos e outras mazelas do dia-a-dia nas grandes cidades. Ultimamente repetia com freqüência, e sempre com orgulho, outra frase: “Trabalhei para a tua avó, trabalho para a tua mãe e para ti, e um dia estarei por aí, de cabelos brancos, quem sabe de bengala, trabalhando para as tuas filhas”.

tTiane não trabalhará para minhas filhas. Foi assassinado em 21 de fevereiro, dentro de um apartamento do mesmo condomínio, com quatro tiros, depois de ser atraído até ali por um desafeto que supostamente acenava com a bandeira branca. Desafeto que chegou a ir à minha casa uma vez, como seu assistente – e à casa de minha mãe, onde vacilava na hora de entrar porque dizia ter medo do gatinho dela –, mas que ele demitira quando começaram a sumir objetos das casas visitadas. E que estava sendo processado por roubo, processo no qual Tiane havia sido intimado a depor como testemunha. Foi morto na véspera. Celso Luís Oliveira dos Santos, 21 anos, assassino confesso, e Marlon Emerin Júnior, 18, cúmplice confesso, foram presos no último final de semana. O assassino no cemitério, enquanto enterrava um parente, e o cúmplice na casa de parentes.

tTiane Roberto Ribeiro Rodrigues tinha 37 anos (teria feito 38 em 10 de março). Deixou os filhos Gabriel, 16, e Bruna, 17, a mãe Neli, a esposa Márcia, e a ex-esposa e amiga Claudete.

tTiane não trabalhará para minhas filhas. Mas as marcas de suas mãos ainda estão no teto de meu banheiro, ao lado do alçapão que dá acesso ao telhado. E ainda estamos nos jardins do Village Lindóia nos anos 80. Está tudo muito confuso, mas acho que tento levá-lo para longe de algo ruim.

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* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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