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Time is Money. Onde?

Se você me encontrar numa fila não compulsória, chame a polícia, há alguém com um revólver nas minhas costas. M.A. Tentei costurar memórias, pensatas …

Se você me encontrar numa fila não compulsória, chame a polícia, há alguém com um revólver nas minhas costas. M.A.

Tentei costurar memórias, pensatas (?!) e outras coisas sem nenhuma necessidade, além do meu compromisso com Vieira da Cunha, meu editor em Coletiva. Saiu um grande resmungo contra perder tempo. Se quiser perder o seu, vá em frente.

A Saúde, de anos para cá, líberou total os médicos e periféricos com o relógio. Esse pessoal usa relógio no pulso para saber – exatamente – o tamanho do atraso.

Ontem, esperei uma hora para fazer uma audiometria com “hora marcada”.

Já que sala de espera é o túmulo do tempo, acho que – pelo não-andar da carruagem – colocar revistas – nela – já era. Uns livrinhos refrescariam um pouco a cuca de quem, como eu, tem o estigma de ser pontual, educação que neste 3º mundo é quase privilégio. A ausência de extensas linhas de metrô serve como cacoete: “Desculpe o atraso, foi o trânsito”. Para salas de espera de consultas muito frequentes, os seis volumes de Em busca do tempo perdido, de Proust, aliviaria a penitência e daria um ar mais sofisticado à relação doutor/paciente. No caso, o vocábulo paciente é exato.

Paciente levou-me ao antônimo, impaciente. A renúncia do presidente Jânio Quadros e o impasse criado pelos ministros das três armas* impedindo a posse do vice eleito – João Goulart – quase levam o país à guerra civil.

Brizola, então governador do Rio Grande, levantou o Estado em defesa da lei, no movimento que passou à História como “Legalidade”.

Setembro de 1961, Porto Alegre. Eu presidia a assembleia permanente do Comitê de Intelectuais e Artistas Pró-Legalidade quando se levantou, na plateia do nosso Teatro de Equipe, Pimenta, um fazendeiro gaúcho no Paraná que se mandara de lá para Porto Alegre, louco para pegar em armas. Ele, impaciente, bradou:

– Essa revolução não sai nunca, parece promissória de cigano.

A sempre citada pontualidade britânica é tão rigorosa que, para evitar o cacoete atraso/trânsito, há 147 anos abortou a possibilidade e colocou em operação o metrô londrino, o pioneiro no mundo.

Paris e New York, nessa ordem, inauguraram suas primeiras linhas logo no início do século 20.

Lúcio Costa, o mais renomado urbanista brasileiro e grande arquiteto, doce figura que conheci pessoalmente – sempre com seu acessório, o cachecol –, acho que acreditava que outros colegas seus resolveriam o problema do trânsito sem transformar passageiros em minhocas.

Planejou Brasília sem metrô para não frustrar JK no seu empenho na criação de nossa indústria automobilística, empenho que acabou transformando o país num grande exportador de veículos automotivos.

Acontece que, ao fazer o planejamento da Baixada de Jacarepaguá (1969), também esnobou a solução do transporte subterrâneo (no caso, poderia ser mesmo na superfície em mais de 30 km), o que incrementou, até demais, o mercado das buzinas, incremento que deve ser um dos motivos para a minha ida à audiometria.

Meu bloqueio em perder tempo em filas e esperas levou-me, há uns 40 anos, ao médico reflexologista – processo autógeno – e antigo amigo Ascânio Pedro, para acabar com algumas fobias inconvenientes.

Logo na primeira consulta, a hora marcada foi respeitada, para a felicidade de ambos:

– Mario, o que traz você aqui?

– Não consigo esperar nada e isso causa-me grande perda de tempo…

– Não é um paradoxo?

– Não. Marco uma consulta com um médico ou dentista, se passar de 15 minutos da hora marcada, vou embora. Como ir embora não resolve o motivo da consulta, volto. Tento, às vezes, outros profissionais e lá se foi grande tempo perdido. Em determinadas circunstâncias, tenho que me acostumar ao fato que vivo no Brasil.

O processo autógeno ensinou-me a esperar muitas vezes, goste ou não, e se me livrou de algumas fobias, não me livrou de critério, pois nunca, até o alívio de sua encampação, entrei numa agência do Banerj, banco oficial, trabalho reservado para contínuos ou despachantes e, ao contrário, nunca deixei de votar, independentemente do tamanho das filas.

Jamais sosseguei à minha perplexidade quanto a este país que há décadas inventou o sentido “mais ou menos” para o vocábulo “tipo”, ou seja, “a gente se encontra tipo 11 da manhã”.

Um dos meus muitos apelidos profissionais foi quando dirigi a Criação da Standard Propaganda e resolvi problemas relativos à bagunça e à dificuldade em cumprir prazos: “Tudo pronto?”.

Creio que a crônica está pronta.

Inté.

*Os ministros Odílio Denys/Guerra; Gabriel Grün Moss/Aeronáutica e Sílvio Heck/Marinha tentaram impedir a posse de Jango e assim como Getúlio saiu “da vida para entrar na História”, eles saíram da História conhecidos como os Três Patetas, pela profunda inteligência com a qual nasceram, cresceram e morreram.

Serviço:

José Teitelroit, gaúcho de ascendência judaica, que conheci em Porto Alegre, quando voltava da Europa, foi o responsável pela fundação do Instituto Brasileiro de Reflexologia, com sede em Ipanema, Rio, onde fiz o meu treinamento. Essa “reflexologia” não tem nada a ver com a terapia do mesmo nome que se relaciona com os pés. O texto que segue é da Wikipédia: “treinamento autógeno é uma técnica de relaxamento baseada na autossugestão criada pelo psiquiatra berlinense Johannes Heinrich Schultz (1884-1970). Seu livro Das Autogene Training, obra básica sobre o método, foi publicado em 1930 e, desde então, o método se difundiu muito, tornando-se uma parte essencial no tratamento de estresse e de outros transtornos psicossomáticos. O termo ‘autógeno’ é derivado das palavras gregas autos (si mesmo) e genos (gerar) e refere-se ao fato de o relaxamento não ser induzido mas gerado pelo próprio praticante”.

Leitores na vitrine

“Surpreende-me profundamente que vc tenha perdido seu precioso tempo à cata de um ponto que só interessa a gente pouco versada ou dotada de desvios de ordem sexual. Ficaria muito bem, por exemplo, para o Jô Soares, que é vidrado no tema. Abs, José Carlos Pellegrino

Sensacional, Mário!

Abraços! Prof. Dr. Carlos Cunha

Grande Mário,

Excelente, pontual, pertinente, interessante, leve, atual, enfim, algo que a gente lê e relê sem se cansar.

O mais bacana, Mário, é a carência total do pornográfico, do duble sense.

Só um pouquinho de preconceito de minha parte (não é xenofobia, não), é que conhecendo a Inglaterra e os ingleses em particular, não me surpreendo absolutamente com o resultado da “pesquisa” a qual tão bem colocaste em dúvida sem magoar ninguém.

Cuidado, meu inesquecível amigo, escreva e publique enquanto podes. O tal de Programa Nacional de Direitos Humanos, obra mal cheirosa de Paulo Vannuchi (trocadilho intencional), se prosperar (ah, foi assinado sem ter sido lido pelo presidente, azia?), talvez te impeça nos continuar premiando com crônicas tão interessantes!

Um abração do Luiz Fernando Di Vernieri

PS. Fico abismado com tua capacidade de encontrar os mais variados assuntos para tuas crônicas. És um Eclético Renascentista.

Mario Almeida, grande sacada científica; ou tem mulher na pesquisa para provar a hipótese do ponto G, ou a tese é falsa.

Grande abraço, Eloí Flores, ULBRA, Diretor Campus Guaíba.

Veio como “resposta” da crônica:

Mario querido, saudade!!! tudo de bom… 1000 beijos

Deborah

Respondo também aqui:

Deborah Finocchiaro, minha grande atriz e de todos que te aplaudem: mileum beijos e uma preocupação – não podemos continuar a não nos ver assim. Mario

 

Autor

Mario de Almeida

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