Colunas

Toda a ternura que eu perdi

Fã declarada do Chico Buarque Lindo de Holanda, escutava um CD de arrepiar em que Cida Moreyra interpreta canções do eterno menino de olhos …

Fã declarada do Chico Buarque Lindo de Holanda, escutava um CD de arrepiar em que Cida Moreyra interpreta canções do eterno menino de olhos claros. E, ouvindo a música “Todo Sentimento”, encontrei respaldo para algumas encrencas que me assaltaram neste início de semana. Descobri que, como ensina a letra, “preciso não dormir, até se consumar, o tempo da gente”. Sim, porque sempre quando desperto, e isso, invariavelmente ocorre nos últimos, digamos 40 anos, perdi um pouco da ternura que tinha. Então, plagiando Chico, “pretendo descobrir um tempo que refaz o que desfez, que recolhe todo sentimento”.

Mas não resta muito tempo para descobrir este “tempo da delicadeza, onde nada aconteceu”. Como disse Josué Guimarães, no livro “É tarde para saber”, necessita ser um encontro com caráter de urgência. Enquanto ainda tenho um pouquinho, uma quantidade quase que insignificante de ternura. Porque o que me sobra de ternura, embora não seja suficiente para sustentar grande sonhos e utopias, poderá ser o ideal para plantar novas sementes de ternura. E assim, sucessivamente. E, principalmente porque não me cabe ser responsável por toda a ternura do mundo. Assumo a parte que cabe junto à família, amigos e amores.

A primeira vez que perdi um pouco da minha ternura, há muito tempo, eu era uma menininha, e me avisaram, assim de sopeiam, que Papai Noel não existia, nem mesmo o coelhinho da Páscoa e muito menos as fadas que protegiam as crianças. Deveria existir uma forma mais amena de se comunicar isso aos filhos. Não que eu esteja reclamando dos meus pais. Eles agiram quando imaginaram que eu poderia pular etapas. Só que talvez não estivesse madura para compreender que  andara um tempo fazendo papel de tonta. Por essas e outras é que ainda faço as pegadas do coelho da Páscoa para a minha filha.

Gabriela Martins Trezzi, minha pequena adolescente, sabe que não existe coelhinho da Páscoa e, por volta dos sete ou oito anos, percebeu que o Papai Noel usava o mesmo estilo de calçado do meu irmão e um só aparecia quando o outro sumia. São coisas que não precisei explicar. E nem o faria (talvez ela só saiba disso agora lendo a coluna). Podem rir. Mais ou menos na mesma época, descobri que mamãe e papai faziam sexo e, com certeza, vi sumir no pó da estrada uma ternura estranha que  me habitava. Meus Deus, eles não eram intocáveis. Antes de tudo, meus pais eram uma mulher e um homem.

Com a chegada dos demais ritos de passagem essenciais ao crescimento do ser humano, fui deixando, ao sair ilesa ou não de cada um deles, parte da ternura que tinha guardada em mim. A nota baixa no colégio; o fim do primeiro namoro, que continua doendo na gente o resto da vida; as decepções da adolescência – não que elas não apareçam nas outras fases, mas é nessa que estamos mais frágeis e as cicatrizes demoram a curar. E sempre, mesmo que a experiência não fosse negativa, eu saía um pouco debilitada, sem apoio, sem carinho, sem um pouco da ternura que guardara, escondida, pertinho do coração.

No encontro das ruas Tomás Flores com a Antão de Faria (uma ruela tão pequena que nem todos conhecem em Porto Alegre), eu perdi, uma vez, várias poções de ternura ao entrar na fase adulta. Foi quando convivi, pela primeira vez com a perda de um familiar; quando entrei na profissão de jornalista; quando ganhei meu afilhado e sobrinho Rafael e depois a Camila, que enche a minha vida de emoções; quando vi a minha mãe sofrer muito. Foi a segunda vez que eu deixei que me abandonasse uma quantidade de ternura tamanha que me senti uma mulher completamente órfã de bons sentimentos.

Depois, a cada dia fui eliminando, pelo ódio, desamor, desatenção, solidão, aspereza, egoísmo e até coisas boas, como relacionamentos, amigos, novos empregos, gravidez, o ritmo terno que fazia parte do pacote quando nasci. Aliás, o sexo feminino cede muita ternura durante sua vida porque parte dela é recuperada ao se engravidar, ao se gerar um filho, ao acompanhar o crescimento deste “serzinho” que transforma os nossos dias. Um dos momentos mais marcantes de transfusão de ternura foi ver a Gabriela saindo de dentro de mim, depois caminhar, falar, me abraçar, e me encher de beijos.

Mas, não sei porque exatamente amanheci, na terça-feira, completamente anêmica de ternura. Um gosto amargo no café da manhã. Um sabor azedo no lanche às 11h. Uma vontade de mandar tudo praquele lugar lá pelas 14h. E foi todo o dia assim. Até o final da noite. Como se não valesse mais sonhar meus sonhos, alimentar minhas ilusões, fomentar meus desejos, acreditar nos homens, fermentar a esperança. Como se fosse impossível acreditar num mundo melhor. Foi a terceira vez que eu perdi um naco grande de ternura.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.