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Todo o dia era dia de índio e de ser feliz

Em homenagem ao Dia do Índio, comemorado em 19 de abril, quinta-feira da semana passada, fui a protagonista de um legítimo “programa de índio”, …

Em homenagem ao Dia do Índio, comemorado em 19 de abril, quinta-feira da semana passada, fui a protagonista de um legítimo “programa de índio”, no turno da manhã e início da tarde de sábado, Dia de Tiradentes, 21 de abril. Mas, como, às vezes, São Jorge, cujo dia foi lembrado em 23 de abril, na segunda-feira, me empresta o dragão e o que mais pedir, consegui mudar a paisagem do meu último sábado. E de um programa de índio, num sábado que desejava experimentar um sol, mas brigava com um tempo que se sujeitava a pequenas instabilidades, pulei para um belo programa familiar com a minha filha Gabriela, do tipo que não nos permitíamos há tempos, mais em função de uma agenda dela lotada de compromissos do que qualquer outro motivo.

E porque sábado foi sábado (ai, Vinícius de Moraes, confesso que roubei) a função começou cedinho com o azedume ao ler, rapidamente o jornal. Mas isto faz parte da minha rotina diária e congelei este assunto e fui adiante abrir a porta para o encanador, chamado às pressas (sim em pleno feriado), uma vez que verifiquei um vazamento na torneira da cozinha. Aliás, o tal problema exigia dos moradores de minha casa (eu e Gabriela porque o Dalai não alcança na pia), exercícios repetidos de paciência, porque a tal torneira não cedia tão facilmente. Para fechá-la, era necessário um equilíbrio complicado de encontrar entre a torneira de água quente e fria.

Depois de muitas marteladas para quebrar o azulejo, movimentos de encaixe na nova torneira reluzente, testes e testes, o encanador me dá a notícia. “Dona, o problema não é só na torneira, é mais grave, o encanamento de água quente tá velho, tem que trocar de todo este lado do edifício”. Pensei e conclui que tudo aquilo fugia do meu apartamento e se espalhava pelo condomínio. Ciente do embrulho (imaginava eu), disse que tudo bem e que aguardaria até a segunda-feira (de São Jorge) para solicitar o conserto do edifício. E que ele deixasse os registros abertos até as providências cabíveis. E seu Vanderlan (este é o nome do encanador) arremata: “sem água quente até arrumar, vamos desligar o registro geral”.

Pois digo-lhes que Nossa Senhora do Chuveiro, que me concede muita resistência, me alojou neste apartamento com chuveiro a gás. Vocês podem imaginar a notícia de que ficaria até a segunda-feira tomando o tradicional banho de canequinha ou ficaria adepta da ducha fria? Foi o que ocorreu. Dois dias de pingos assustadoramente frios caindo sobre o meu corpo. E de Gabriela com seus longos cabelos sedosos e lindos também. E com apito de índio e cocar, invadi correndo o banheiro e com coragem e frio, tomei um banho gelado no sábado de índio.

Limpinha e batendo queixo, tomei a sábia decisão. Vou encerrar este dia com um bom almoço em alguma praça de alimentação de um shopping (sim, normalmente esta minha refeição nunca é feita antes das 16 h nos finais de semana), ver um filme no cinema, tomar um café com chantilly. Simples assim. Como a minha filha havia saído para almoçar com o pai, resolvi lhe informar, pelo celular, do meu roteiro. “Mãe, vamos ao cinema juntas. Que tal Titanic 3D?”. De imediato topei e nos encontramos para a tarde de aventura no shopping.

A memória nem registrava mais o incidente ocorrido mais cedo de banho de água fria. A cabeça nem doía com as marteladas nos azulejos. E a preocupação em pressionar a imobiliária para consertar logo na primeira hora da manhã de segunda-feira o problema do vazamento me abandonou completamente. O resto do dia foi excepcional. Mesmo que o shopping estivesse lotado. Que a lotação tenha demorado mais para passar. E que algum pingo de chuva ensaiasse cair. Qualquer tipo de chatice deu lugar à felicidade imensa com o programa com minha filha. Talvez um programa de carinho. Quem sabe horas de afeto. Ou quem sabe um programa de uma mãe, às vezes, índia?

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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