Colunas

Todos juntos vamos

Nem sempre devemos confiar em todos os dados estatísticos que nos apresentam. Muito estranho, por exemplo, uma pesquisa indicar que a média de filhos …

Nem sempre devemos confiar em todos os dados estatísticos que nos apresentam. Muito estranho, por exemplo, uma pesquisa indicar que a média de filhos que a brasileira tem é de 2,5%. Mais ou menos significa dizer que ela teve meio filho. Talvez uma gravidez e meia. Ou porque seu plano de saúde não cobria todas as despesas ou sabe-se lá o motivo. Será? Ou o raciocínio já integra meu período doido e irracional de inferno astral? Desencontrados ou não, alimentados ou não, educados ou não, politizados ou não, felizes ou não, mais de 191 milhões de brasileiros assistirão aos jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2010.

Essa população, estimada pelo IBGE, referente ao primeiro semestre do ano passado, esquecerá das contas acumuladas, das dores no corpo, dos amigos que não aparecem, das compras por fazer, dos amores desfeitos, dos afetos não dados. Essa população, tradicionalmente conhecida no cenário internacional pelo carinho que devota ao futebol e ao carnaval, deletará do seu vocabulário qualquer possibilidade de discórdia, todo caminho tortuoso e os indicativos de problemas insolúveis. Durante a competição, na África do Sul, o país é outro. O Brasil não conhece o Brasil.

Não são somente 90 milhões em ação. A população aumentou de 1970, quando a música cantada pelos Incríveis (que nomezinho de conjunto) empurrou o nacionalismo na Copa do México e a seleção conquistou o tricampeonato, para 2010. O cenário político, econômico e social são completamente diferentes. Ainda bem, porque ninguém gostaria de reviver aquelas dores. Mas é só falar em Copa do Mundo que se arma aquela corrente pra frente e “salve a seleção”. De repente, parece que não existe desigualdade social, preconceito racial, discriminação de sexos. E tudo é empurrado pra baixo do tapete. Ou pra depois da Copa.

Todos ligados na mesma emoção ficarão mais pobres nos dias de jogos do Brasil, porque deixarão de trabalhar, de produzir produtos e inteligência, de questionar e de estudar. Todos ligados na África do Sul cegarão seus olhos para a pobreza do desempregado, para a necessidade do sem-teto e seu vizinho que dorme na calçada, para a Ficha Limpa, para a eleição de outubro, para as eternas promessas dos políticos. E enquanto o Brasil todo “dá a mão na mesma emoção”, a criança continua esmolando nas esquinas, as vagas seguem escasseando nas escolas públicas e cada vez mais, educação é uma utopia.

Já vai longe o tempo em que, totalmente radical, declarava que um povo tão maltratado não poderia esquecer suas mazelas durante os dias de copa. Que uma população repleta de encrencas a resolver não deveria cancelar tudo e viver de futebol. Tudo muda. Hoje, embora ainda me considere um pouco radical, até entendo esta catarse que o futebol exerce nas pessoas. Compreendo que é preciso uma válvula de escape. Inclusive comprei nas lojas de R$ 1,99 as tais buzinas de torcedor. Planejei orgias alimentares com pipoca, pinhão e rapadura para as minhas companhias durante os jogos do Brasil.

Mas acho deplorável que todos entendam e sejam técnicos de futebol, que todos engrossem de olhos fechados esta corrente, que todos se vistam com a roupa do patriotismo durante a copa, trocando as vestes depois. Lamento que todos fiquem juntos por tão pouco tempo!

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.