Colunas

Tout va très bien…

Algo me dizia que havia alguma coisa fora do normal naquela tarde na bucólica cidadezinha do sul da França. O céu era de um …

Algo me dizia que havia alguma coisa fora do normal naquela tarde na bucólica cidadezinha do sul da França. O céu era de um azul absurdo, as pessoas passeavam com “baguettes” debaixo do braço, jogadores de “boule” trocavam amáveis insultos debaixo das castanheiras. Lourmarin não precisava de mais nada para ser o perfeito cartão postal da Provença.

***

Mesmo assim, o instinto de viajante continuava insistindo que algo estranho estava prestes a acontecer. Talvez por conta de excitação de chegar às costas do Mediterrâneo ou por causa daquele vento quente e àspero que soprava do Sul. Mas também me intrigava ver os moradores espiar o céu com o cenho franzido, como se esperassem a visita de visitantes espaciais.

Atravessando a praça subo uma ladeira de pedras irregulares que serpenteia entre casas brancas enfeitadas com vasos de gerânios. No topo, uma placa azul mostra que estou chegando ao hotel que me fora indicado por um amigo, conhecedor da região. Diz ele que era um Relais et Chateaux com um diferencial raro – seus preços estavam sempre defasados em dois ou três anos.

O Le Moulin está instalado em uma antiga fábrica de azeite e esbanja charme em todos os cantos. Parece trabalho de um competente designer, com móveis provençais antigos e piso de lajotas vermelhas polidas pelo tempo.

***

Pelas placas das BWMs e Audis no pátio, o lugar parece ter sido eleito por turistas escandinavos e alemães endinheirados. Será que também estão em busca de preços defasados?

Mas logo enfrento a realidade – a jovem concierge, tostada pelo sol da Côte, graciosamente me informa que as tarifas acabaram de ser atualizadas. Meu quarto é luminoso e parece ter saído das páginas da Vogue Maison. Ao chegar ao balcão de ferro da janela, entendo as diárias cobradas – me debruço sobre uma ampla vista para o maciço do Luberon. Peter Mayle devia estar por perto.

***

Na mesa, um exemplar do Le Guide Gantié, com uma fita vermelha assinalando as páginas dedicadas ao Le Moulin de Lourmarin, o restaurante do hotel. O editor não economiza elogios, explicando que a casa se especializou no preparo de pratos tradicionais da Provença, utilizando exclusivamente produtos de terroir e de pequenos produtores regionais. O simpático garçom de cabelos brancos me conduz a uma mesa de janela, com vista para o sempre presente Luberon. E acrescenta, casualmente:

“Estamos com poucas reservas, pois muitos deixaram a cidade,

com medo do Mistral.”

 

(Demoro algum tempo para absorver a informação. Lembro do vento quente, as pessoas olhando para o céu, um restaurante estrelado quase vazio em um sábado à noite… Meu instinto de viajante não me enganou: o algo estranho que estava chegando tinha nome: Mistral!).

Da mesa de janela vejo o céu, que era de um azul de topázio, agora toldado por nuvens cinza-chumbo, quase negras, que rolam sobre as montanhas. Lembro das lendas sobre o Mistral – que quando sopra, destelha casas, joga chaminés no meio da praça e faz porcos voarem. No entanto, meus piores augúrios desaparecem diante do sorriso do garçom que estende o menu du jour. Um menu enxuto, mas repleto de promessas. Escolho a entrada:

Terrine de foie gras de canard aux figues du jardin.

Não hesito no principal, vou de merluza salteada no alho poró e azeitonas pretas:

Filet de merlan sauvage cuit au sautoir, en écrin d”olives noires,

Petits poireaux fondants.

A especialidade da casa é a única opção para a sobremesa:

Gâteau aux noix, figues fraîches et Muscat

rôtis au miel de lavande.

***

Me encontro literalmente dividido – a rica cozinha provençal é uma das mais saborosas da França, com pratos preparados com ervas e condimentos que já eram apreciados pelos antigos navegadores do mare nostrum. Do outro lado, vejo as árvores do terraço se dobrando ao vento cada vez mais violento. No entanto, dentro do salão, não existem sinais de preocupação. O garçom percebe minha inquietação e, como quem já viveu muitos Mistrais:

 “Ne vous inquiétez pas, Monsieur, tout va bien, tout est très bien.”

Passo os olhos pelo salão. Em vez do vento uivante, tilintar de talheres e copos, conversas em tom quase íntimo, de quando as pessoas degustam o vinho, aguardando a comida. Eles devem saber que um violento temporal está prestes a desabar sobre suas cabeças, mas preferem se concentrar nos prazeres da vida. Melhor imitá-los: examino a diminuta Carte de Vins, à procura de um branco adequado para acompanhar o merlan sauvage. Descarto os recomendados, por desconhecidos – um Château Rasque e um Clos Mireille des Domaines Ott. Mas chama a atenção a inventiva descrição do Domaine Terres Destel, de “velhas cepas cultivadas em terroir de terras vulcânicas nas encostas do Var”.

E, durante as próximas duas horas, esquecemos o vento, a chuva e os porcos voando sobre os campos. Habitamos uma ilha de calma e serenidade – conversas, risos, copos tilintando em brindes cada vez mais alegres. O excelente blanc de blanc está terminando e o peixe com azeitonas já deixa saudades.

O garçom grisalho chega para servir o café e o marc. Ele parece saber quando um comensal está feliz e saciado, pois recita, com a nonchalance típica dos mediterrâneos:

“Tout va très bien, cher monsieur, tout va très bien.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.