Durante dez meses do ano, Porto Alegre é uma cidade agradável, quase perfeita para ser habitada, mas já apresenta os sinais estressantes de uma metrópole sufocada pelo crescimento não planejado. Os congestionamentos são constantes não só nas horas de pique. As filas são enormes para pagar contas, retirar dinheiro nos caixas eletrônicos, conseguir lugar em restaurantes para almoçar ou jantar nos sábados ou domingos. E os meios de transportes coletivos estão sempre entulhados de passageiros, desobedecendo a lotação máxima permitida. A capital dos gaúchos torna-se uma cidade maravilhosa nos meses de janeiro e fevereiro, quando parte considerável da população desloca-se para o litoral gaúcho e catarinense, ou parte de férias para outros pontos.
São dois meses de tranquilidade de uma cidade alegre, mas vazia. Sem os ranços de uma capital em pleno desenvolvimento e sim a infraestrutura necessária. Sem os atrasos no trânsito para justificar o não cumprimento dos horários nos compromissos diários. Sem a impaciência da pressa, da urgência, dos habitantes ocupados e nervosos. Tudo na mais perfeita paz. Tudo na mais terna harmonia. Tudo como convém àqueles que ficam nas férias dos outros trabalhando em Porto Alegre.
No primeiro final de semana real de Porto Alegre no veraneio em 2012 (7 e 8 de janeiro), as ruas estavam calmas, o transporte coletivo não se mostrava assim tão coletivo, mas estava agradável, os consumidores podiam aproveitar as ofertas das liquidações sem incomodações dos vendedores e de outros consumidores e os cinemas nos shoppings tinham apenas uma pequena fila não desanimadora. Até mesmo o tradicional passeio dos domingos de manhã no Brique da Redenção pareceu mais atrativo. E no entardecer, um chope com os amigos em algum boteco não tão atrolhado da Cidade Baixa. A cidade convidava para os afetos, os carinhos e os encontros. O clima em Porto Alegre favorecia a convivência social.
Nada se compara a Porto Alegre de férias. É quase a visão do paraíso. Uma filial de Pasargáda, onde todos os moradores são amigos do Rei. Nada se assemelha a Porto Alegre quando ela veraneia na própria cidade. Ela se expõe ao sol em qualquer horário sem se importar com os efeitos dos raios ultravioletas. Ela se permite abusar da lua sem se preocupar com as suas fases. Ela passeia com desenvoltura tanto pela Cidade Baixa ou pelas travessas poderosas da Rua Padre Chagas, no bairro Moinhos de Vento. Nada se parece com Porto Alegre quando ela descansa, em janeiro e fevereiro, dos outros dez meses cansativos do ano.
Portanto, não é bom ficar reclamando que não tem férias, que não foi para as praias do litoral gaúcho, que não enfrentou engarrafamento na freeway, que não esticou para as praias lindas de Santa Catarina ou que não pegou uma cor e teve que apelar para o bronzeamento artificial. Aproveite e tire férias em Porto Alegre. A cidade espera as visitas dos seus habitantes. De braços abertos.

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