Ttetta Reddast!

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Estávamos em algum lugar na remota Westfjords, uma península a Oeste da Islândia. Foi quando ouvimos, pela primeira vez, uma expressão que soou completamente incompreensível. O islandês (ou norreno) é um dos mais antigos idiomas nórdicos e seu entendimento não é nada fácil para os ouvidos latinos. Dias depois, ouvimos as mesmas palavras em circunstâncias semelhantes:

"Ttetta reddast!"

Sua pronúncia soa algo como "fet-ta rad-ust" e seu significado, no dia a dia dos islandeses, pode ser assim entendido:

"- Não se sintam perdidos, vão achar o caminho."

Ou ainda:

"- Não se preocupem, no final tudo vai dar certo."

A frase parece resumir a maneira de como os islandeses encaram a vida: com atitude tranquila diante das dificuldades, acrescida de uma boa dose de conformismo e senso de humor. A escritora Alda Sigmundsdóttir, autora de 'O Pequeno Livro dos Islandeses dos Velhos Tempos', nos diz que a expressão, mais do que frase ocasional, sinaliza uma filosofia de vida. E explica:

"- Geralmente é usada com irreverência ao oferecer conforto. Mas também a usamos quando não sabemos o que dizer diante do inevitável."

Seria um estado de espírito que reflete o turbulento passado da Islândia? Um passado marcado por invasões, desastres naturais e frios extremos. As nevascas e tempestades que descem do Ártico são comuns, bem como erupções vulcânicas. Há cerca de 30 anos, o vulcão Eldfell (em islandês, 'Cortina de Fogo'), explodiu na ilha de Heimaey, expelindo toneladas de cinzas, destruindo casas e forçando a evacuação da população local. Poucos anos depois, uma avalanche de pedras vulcânicas desceu sobre a cidade de Flateyri, em Westfjirds, enterrando casas e matando pessoas.

Eventos que lembram aos islandeses que vivem em uma ilha situada entre duas placas teutônicas instáveis, responsáveis por miniterremotos quase diários. Uma rotina de convivência com forças extremas da natureza: as fontes termais emitem nuvens de vapor fervente, os geisers explodem a cada minuto e longos invernos com escassas três ou quatro horas de sol por dia.

A leitura histórica diz que os islandeses aprenderam a transformar o impossível em possível. Para superar os efeitos de catástrofes e crises econômicas, fizeram de fenômenos naturais atrações turísticas, o que elevou a Islândia a um dos destinos mais populares da atualidade, com milhões de visitantes de todo o mundo. Mas Alda Sigmundsdóttir adverte que, na mesma Islândia moderna, com WiFi abundante e cartões de crédito aceitos em toda a parte, os moradores do hinterland enfrentam uma batalha constante com os elementos da natureza:

"Quando desaba uma súbita nevasca em agosto, é preciso parar tudo e correr para o campo salvar os rebanhos. Ou, quando um vulcão explode sem aviso, fechando estradas e cancelando voos, o país entra em estado de emergência."

A escritora nos faz entender que, quando se está à mercê do clima e das forças geológicas, as pessoas aceitam o inevitável, deixando tudo nas mãos do destino, esperando pelo melhor. Para os islandeses resignados e tranquilos, Ttetta reddast não significa a recusa de lidar com suas dificuldades, mas a admissão de que é preciso buscar o melhor em cada situação. Há menos do que 100 anos, metade da população morava em casas de madeira e tetos de terra e grama. Hoje, as casas e lojas tem aquecimento geo-térmico, distribuído por tubulações de alta tecnologia que cruzam o país de leste a oeste, do sul ao norte.

Assim como os noruegueses fugiram da escravidão do rei Harald Finehair no século IX, enfrentando o Atlântico Norte em pequenos barcos, sem mapas ou ferramentas de navegação, seus descendentes conseguiram fazer de uma rocha vulcânica inabitável, um país único e admirável.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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