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Tu te garantes?

Eu tinha uns oito ou nove anos quando meu avô me contou uma história que nunca esqueci. Um homem ateu morreu e chegou à porta do céu. Lá estavam um pastor e um padre, esperando para entrar. Deus chamou o ateu primeiro. Ele estranhou.

Como assim? Ele, que não acreditava em Deus, entraria antes de um pastor e de um padre? Confuso, perguntou a Deus o porquê.

E Deus respondeu que o céu não era uma recompensa pela religião que alguém professava. O que importava eram os atos.

Como aquele homem tratou as pessoas. Como tratou os animais. Como enxergou quem tinha menos. Como se comportou diante de quem não podia lhe oferecer nada em troca.

Naquela história, o bem não tinha religião. Tinha caráter!

Talvez seja justamente sobre disso que a gente esteja precisando falar.

Porque, nos últimos anos, parece que transformamos a religião em uma espécie de certificado de bondade.

A pessoa fala de Deus, frequenta uma missa, uma sessão espírita ou um culto, carrega uma Bíblia, publica uma frase religiosa nas redes sociais e pronto: está automaticamente do lado do bem.

Mas será?

De que adianta falar de amor ao próximo se tu humilhas quem está abaixo de ti?

De que adianta falar de família se tu tratas com desprezo a família dos outros e muitas vezes a tua mesmo?

De que adianta defender a vida se tu és indiferente diante do sofrimento de tantos?

De que adianta falar em Deus se tu não consegues respeitar quem pensa diferente de ti?

Talvez a gente venha confundido fé com caráter. E são coisas muito diferentes.

A fé pode orientar uma pessoa para o bem. Mas não garante que ela seja boa.

O discurso pode ser bonito. Mas o comportamento é que conta.

E talvez essa seja uma discussão ainda mais importante em um Brasil que passou a viver em estado permanente de guerra.

Esquerda contra direita. Nós contra eles. Os bons contra os maus. A minha verdade contra a tua. A minha religião contra a tua. A minha ideologia justificando aquilo que eu jamais aceitaria se viesse do outro lado.

A polarização fez uma coisa assustadora com a gente: ela começou a relativizar a maldade.

Se é alguém do nosso lado, a gente encontra uma justificativa. Se é alguém do outro lado, a gente encontra uma condenação.

A mentira muda de nome. A agressividade vira coragem. A intolerância vira convicção. A crueldade vira defesa de valores.

E, às vezes, a falta de caráter ganha uma bandeira.

Religiosa. Política. Ideológica. Patriótica. Mas continua sendo falta de caráter.

Talvez esteja na hora de a gente parar de perguntar em quem uma pessoa vota e começar a prestar mais atenção em como ela trata quem não pode fazer nada por ela.

Como trata o garçom. O funcionário. A pessoa em situação de rua. O animal abandonado. O idoso. O pobre. O diferente. O adversário.

É aí que a gente descobre quem alguém realmente é.

Porque é muito fácil ser gentil com quem pode nos ajudar. Difícil é ser decente quando não existe recompensa.

É muito fácil falar de humildade quando se está diante de uma câmera. Difícil é respeitar quem não tem voz.

É muito fácil falar de amor. Difícil é praticá-lo quando o outro pensa diferente.

É muito fácil falar em empatia. Difícil é ser empático com quem age diferente de mim.

E talvez seja por isso que aquela frase “o bem sempre vence” esteja começando a me incomodar.

Será que sempre vence?

Porque, às vezes, olhando para o mundo, parece que a maldade tem uma capacidade impressionante de sobreviver. Uma resiliência surreal.

Ela se adapta. Encontra justificativas. Encontra seguidores. Encontra discursos. Encontra até mesmo Deus.

E aí eu me pergunto: Até quando?

Até quando vamos aceitar o desrespeito em nome do benefício próprio?

Até quando vamos assistir pessoas destruindo outras pessoas e se escondendo atrás da religião?

Até quando vamos aceitar a crueldade porque ela vem acompanhada da ideologia que defendemos? Até quando vamos confundir convicção com caráter?

Talvez esteja na hora de olhar menos para aquilo que as pessoas dizem que são e mais para aquilo que elas fazem.

Menos para a religião. Menos para a ideologia. Menos para a bandeira. Mais para os atos.

Porque, no final, é muito simples. Uma pessoa boa não precisa anunciar que é boa. A gente percebe.

Percebe no jeito como ela trata quem tem menos. No jeito como ela trata quem não concorda com ela. No jeito como ela trata os animais. No jeito como ela trata quem não pode lhe dar nada em troca. No jeito como ela se comporta quando ninguém está olhando.

Em um país como o nosso, tão acostumado a procurar salvadores da pátria, talvez religião e ideologia tenham adquirido um poder perigoso.

O poder de fazer a gente acreditar que estar do lado certo da história nos transforma automaticamente em pessoas boas.

Não transforma!

Estar do lado certo não dá licença para fazer o errado. Ter fé não dá licença para ser cruel. Ter uma ideologia não dá licença para desumanizar. Ter razão não dá licença para perder o caráter.

Talvez o Brasil não esteja precisando de mais salvadores.

Talvez esteja precisando de mais gente disposta a fazer uma coisa muito mais simples e muito mais difícil: ser decente!

Meu avô me contou aquela história quando eu era criança. Mais quatro décadas depois, eu continuo pensando nela.

Talvez porque ela tenha uma resposta simples para uma pergunta que a gente insiste em complicar: Como saber de que lado alguém está?

Minha dica: Não olhe para o que ela diz acreditar. Olhe para o que ela faz.

O bem não precisa de religião. Precisa de caráter!

E agora eu te faço uma pergunta: se o céu realmente existir, quando chegar a tua vez de bater naquela porta, tu te garantes de que Deus vai te deixar entrar?

Autor

Fernando Puhlmann

Sócio-cofundador da Cuentos y Circo, Puhlmann é um dos principais especialistas em YouTube do país, com um olhar focado em possibilidades de faturamento na plataforma e uma larga experiência em relacionamento com grandes marcas do mercado de entretenimento. Além de diretor de Novos Negócios da CyC, tem também no seu currículo vários canais no país, entre eles o do escritor Augusto Cury, do Gov Eduardo Leite, Natália Beauty e do Grêmio FBPA, sempre atuando como responsável pela estratégia de crescimento orgânico dos canais. Já realizou palestras sobre a nova Comunicação juntamente com diretores do YouTube Brasil como a abertura do 28º SET Universitário da Famecos-PUCRS, o YouPIX/SP e o Workshop YouTube Gaming Porto Alegre. Desde 2013, Puhlmann ministra cursos, seminários e oficinas sobre YouTube, tendo mentorado mais de 30 canais nos últimos anos.
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