
“ Era um aspa-torta, gaúcho
mui andado no mundo e mitrado (…).”
Simões Lopes Neto.
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O mais intrigante nas estórias que eu ouvia do velho Edu é que elas nunca eram iguais – ele repetia as mesmas estórias, inventando lugares e personagens que não se sabia de onde tirava. O Edu costumava se acomodar a um canto da bodega do Joaquim, ouvindo as conversas de tropeiros e viajantes. E depois, as recontava como se fossem suas.
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Naquelas longas noites de minuano, ao redor do fogo, com uma voz rouca e pausada, Edu invocava figuras do passado, heróis, guerreiros, renegados e seus rastros de bondades e maldades.
Ainda posso lembrar de uma ou outra das estórias que ele inventava. Como a de um tal de Eusébio, homem de coragem, que havia caido em desgraça junto ao delegado da comarca. Mas quem o conhecia de outros tempos podia jurar que o Eusébio não era nem desordeiro nem malvado. E até mesmo perdoavam seus arroubos com as moças da vila.
Uma dessas estórias falava que um tropeiro que morava perto da Lagoa, tinha por hábito surrar a mulher quando chegava em casa cheio de caña. Quando ouviu falar no caso, Eusébio rosnou baixinho, passou a mão no relho trançado, montou no baio e foi ensinar modos ao tropeiro.
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Mesmo meses passados, o caso ainda era assunto nas rodas de fogo. Se comentava que o citado tropeiro havia aprendido a lição, até jurando em cruz que nunca mais levantaria a mão para uma mulher.
” – Mas o aspa torta do Eusébio não sossegou”, falou Edu.
Os homens alisaram as barbas, assentando com a cabeça, pois sabiam como o caso havia terminado. Mas Edu fazia questão de terminar o que começara:
” – Ao socorrer a mulher, Eusébio se apiedou por
ver uma moça jovem e bonita
ser maltratada daquele jeito.
Então, botou ela na garupa do baio
e foi-se embora prá longe”.
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