Ser mulher, apesar de todos os direitos conquistados pela luta feminista nos últimos anos, é um ato diário de coragem. E que exige de nós, mulheres, força para enfrentar tantos desafios. Exercer a mesma função que um homem e nem sempre ter a mesma remuneração. Responder sozinha, na maioria das situações, principalmente nas relações heteroafetivas, pelo cuidado dos filhos e da casa. Ouvir piadas infames quando se resolve ir beber desacompanhada num bar ou curtir a noite. Sem entrar nas questões mais polêmicas que envolvem todos os tipos de preconceito e discriminação.
Recentemente, duas notícias apenas endossaram a tese de que ser mulher é muito complicado. Não se trata jamais de endossar que o nascimento de uma de nós seja fruto de uma fraquejada. Nem que estou, ou estamos, nós mulheres, na reta dos recuos e das lamentações. E nem pensar em desistir de qualquer luta cotidiana, porque acima de tudo somos resistência.
Mas o que dizer ao saber que um time de futsal masculino da Faculdade de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA), em São Paulo, se masturbou coletivamente durante um jogo de vôlei feminino do campeonato universitário? A situação obscena, repugnante e nojenta, em que abaixam suas vestimentas e encostando nas próprias partes íntimas, é violenta, misógina e, mais do que isso, é um crime que deve ser classificado como importunação sexual ou atentado ao pudor.
No Brasil, onde 1 estupro é registrado a cada 7 minutos (sem falar nos crimes não notificados), é inaceitável que a cultura de violência sexual ainda esteja presente no meio universitário. O mínimo que se espera é que os responsáveis sejam identificados e punidos. E o mais perturbador é imaginar que se tratam de estudantes de medicina, profissão voltada ao cuidado de pessoas, muitas vezes em condições fragilizadas pela doença, de quem se deseja um comportamento humanizado, respeitoso, maduro, orientado pelo respeito à dignidade humana.
E, por isso mesmo, torna-se inadmissível pensar que esses estudantes poderão ser futuros profissionais da saúde e lidar com corpos femininos. Difícil supor que em breve esses homens poderão estar em consultórios, ambulatórios, postos de saúde e hospitais cuidando de nossa intimidade. E ao se acharem no direito e no conforto da não punição para se masturbarem na frente de alunas, o que eles poderão fazer diante de pacientes anestesiadas depois de formados.
Ao tomar conhecimento do fato, o Ministério das Mulheres afirmou em uma nota: “Romper séculos de uma cultura misógina é uma tarefa constante que exige um olhar atento para todos os tipos de violência de gênero. Atitudes como as dos alunos de Medicina jamais podem ser normalizadas”. Também o Ministério da Educação notificou a UNISA para apurar quais providências serão tomadas em relação a tal episódio. Nunca é demais lembrar que importunação e assédio sexual são crimes. E estamos cansadas de tanta impunidade.
Como se não bastasse tanto desrespeito, o prefeito de Barra de Piraí (Rio de Janeiro), encontrou, com seu intelecto limitado, a solução ideal para o controle populacional da cidade. Pois, durante a inauguração de uma estrada no dia 14 de setembro, o senhor Mário Esteves sugeriu uma lei para limitar o número de filhos por família. “Tem que começar a castrar essas meninas”, afirmou numa declaração misógina e discriminatória. Posteriormente, ao ver a repercussão da bobagem, ele desconversou e disse que era um momento de descontração.
Pois, estudantes da UNISA, futuros médicos, prefeito e tantos outros homens que seguidamente nos ignoram, nos mandam calar a boca, nos desprezam e não nos respeitam, lamentamos informar: mas somos fortes, corajosas, não desistimos fácil e acima de tudo, resistiremos!


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