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Um bom companheiro

Semana passada, foram rememorados os 20 anos da morte de Maurício Sirotsky. Devo ser umas das pessoas mais autorizadas a dar um depoimento a …

Semana passada, foram rememorados os 20 anos da morte de Maurício Sirotsky. Devo ser umas das pessoas mais autorizadas a dar um depoimento a seu respeito por uma singela razão: não me dava com ele.

Os motivos do rompimento foram pífios. Pertencem aos embates da vida. Saímos da refrega, Maurício me achando um temperamento difícil, eu, julgando que ele não era por demais exigente com alguns de seus assessores.

A situação de cumprimentos cortados e olhares indiferentes, afora uma que outra escaramuça, se prolongou por mais de 15 anos, até que um dia, de madrugada, um telefonema acordou todo mundo na minha casa. Era Flávio Alcaraz Gomes, assumindo a direção da Rádio Gaúcha e me convidando para apresentar Gaúcha na Madrugada.

Nunca perguntei ao Flávio como tinham chegado ao meu nome. Ana Amélia Lemos certa vez me disse que fora sacada de gênio do Flávio. Ele sabe descobrir dentro das pessoas o que podem dar ao rádio e à tevê.

Ana Amélia traçou com perfeição o talento do Flávio. Só para ficar nos exemplos mais recentes da sua carreira, bastam duas façanhas: a transformação da Gaúcha, de emissora que patinava para encontrar destino em um dos principais veículos da RBS; e “Guerrilheiros da Notícia”, verdadeiro achado e modelo de muitos programas que hoje fazem sucesso na telinha.

O caso é que em 1963, em rápida passagem pela própria Gaúcha, tinha feito a pedido de Maurício, um piloto de programação para a madrugada. Era um projeto pioneiro para Porto Alegre e foi posto no ar por Éldio Macedo. Quando o projeto foi cancelado, eu já tinha voltado para a Rádio Farroupilha.

Não era o essencial. Naquela madrugada, fiz ver a Flávio que havia uma impossibilidade para atender ao convite. Não me dava com o Maurício, não ia falar com ele.

“Já conversei com o Maurício”, respondeu Flávio. “Ele não se importa. Só me avisou que és muito brigão e vives pedindo demissão. Como eu e tu já temos estrada juntos na Caldas Júnior, também não tem importância.”

Defrontei-me com Maurício nos corredores da RBS algumas semanas mais tarde. Senti-me constrangido. Não havia como fugir do encontro e fiquei com um pé atrás, esperando algum tipo de cumprimento que pusesse as coisas nos lugares: eu patrão, tu empregado.

O que houve foi uma surpreendente explosão de afeto, como se fôssemos inseparáveis amigos de infância. Falou entusiasmado do programa, falou das coisas engraçadas que aconteciam nos telefonemas e citava ouvintes que lhe tinham chamado a atenção.

Depois disso, só falamos mais uma vez, meses mais tarde. Ligou-me à tarde para o Jornal do Comércio, onde eu também trabalhava como editor-chefe. Um pouco cheio de dedos falou que desejava debater comigo o comentário da madrugada anterior.

Fora uma crítica rude a Delfim Netto, ministro de João Figueiredo. A política ruinosa de desenvolvimento à custa de inflação me parecia algo sinistro, o que, aliás, rimava com ministro. Na hora, sem que me desse conta, no calor do improviso, mais por eufonia, para arredondar a frase, como é comum no rádio, o que saiu foi algo como: “O ministro Delfim Netto, esse gordinho sinistro…”.

“Sabes, a rima ministro-sinistro, até que é boa” – me disse. “O “gordinho”, não. É algo pessoal. Deixa de ser crítica para se transformar em agressão.”

Nunca mais tive contato com Maurício. Logo em seguida, andei por Florianópolis, convocado por Armando Burd, para colaborar no treinamento da equipe que criou o Diário Catarinense. Estava no hotel, fazendo as malas para regressar a Porto Alegre, quando a televisão noticiou a sua morte.

Lembrei-me do telefonema. Aquele jeito de conversar, muito igual, sem a prepotência de patrão, no tom de colega para colega, me revelou que era um bom companheiro. Lamentei que as pífias razões dos embates da vida tivessem me impedido de usufruir da sua amizade ao longo da vida.

É uma das minhas perdas.

Autor

Jayme copstein

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