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Um brinde de absinto a Lautrec

Como eu tinha metade da manhã livre, antes de ir pro aeroporto, resolvi recrear o pintor frustrado que eu sou e fui ao Masp …

Como eu tinha metade da manhã livre, antes de ir pro aeroporto, resolvi recrear o pintor frustrado que eu sou e fui ao Masp ver Arte da França: de Delacroix a Cézanne. Preferia ter ido ao MAM ver as pequenas esculturas encontradas em sambaquis – deve ser a velhice, cada vez me identifico mais com a arte rupestre e mais a moderna me deixa indiferente ou dispara meu sarcasmo. Mas foi ótimo – reencontrei Toulouse-Lautrec, em quem não pensava há anos.

Veja, pintores que me parecem deslumbrantes nas reproduções, como Delacroix e Renoir, ao vivo quase sempre me decepcionaram – e dessa vez não foi diferente. São pintores que preciso olhar de longe. Mesmo assim, fora uma ou outra banhista do Renoir, nessa exposição tudo me pareceu tão sem graça, muitas vezes até cafona, vide as meninas com as roupas cheias de rendas. Com Van Gogh foi o contrário. Van Gogh foi tão popularizado que parece pintura de calendário, como disse o Nabokov, se não me engano. Mas, cara a cara, sempre me impressiona – e mais uma vez senti força e precisão em cada pincelada. Com Gauguin também. Diacho, como são lindas as pinturas desses dois malucos.

Nunca fui um grande admirador de Cézanne e nunca entendi bem por quê. Na exposição, dominam dois quadros de árvores muito verdes e retorcidas, bastante famosos por sinal. Sabe o que me aconteceu? Tive vontade de ridicularizá-los. Isso mesmo, aquilo parecia coisa de uma tia nossa com pendões artísticos que fez um curso por correspondência. Aquele verde? Minha nossa, nem em bandeira. Se me dessem esses quadros, sem que eu soubesse quem os assina e os milhões que valem, eu os teria posto no lixo descartável. Os fãs do Cézanne e os críticos de arte que me perdoem, mas o cara não me diz nada – culpa de nossos santos, que não se cruzam.

Interessante comparar impressionistas com velhos clássicos como Fragonard e Courbert. Eu adoro os impressionistas, ou talvez a ideia do impressionismo, porque poucos quadros realmente me empolgam. A maioria me parece apenas desleixada ou que o pintor desistiu da forma que buscava no meio do caminho. Talvez essa sensação se acentue ao ver um Fragonard ou um Courbert. Claro, esses fulanos têm séculos de tradição para sustentá-los e estão mais interessados no bom acabamento do quadro do que em expressar qualquer emoção mais profunda. Sei que havia muitas senhoritas de uma excursão se fotografando diante dos retratos perfeitos deles. Talvez seja o único meio de se lembrar depois.

O pintor mais injustiçado nessa exposição foi Picasso. Ele era um gênio total, não há como negar, mas também não dá pra negar que grande parte de sua obra é pura porcaria, no melhor dos casos imitação de si mesmo. Note-se: muita gente fez essa crítica, que anda cada vez mais esquecida. Na verdade não se fala mais de Picasso. Fala-se dos milhões que os quadros alcançam nos leilões. Um final melancólico, como tantos outros.

Os quadros expostos me pareceram feios, banais. Claro que eu gostaria de ser dono de todos eles – pra vendê-los no dia seguinte e nunca mais trabalhar. Minha impressão de feiura e banalidade se acentuou quando cheguei na ala do Toulouse-Lautrec. Dez quadros – e cada um melhor que o outro. O primeiro que vi se chama “O cão”, que eu não conhecia – e desbundei. Lautrec pinta o movimento, me entende? Talvez ninguém pinte o movimento melhor que ele – os quadros são o movimento. O cara era do tipo que pega uma mosca no voo.

Diante de um Lautrec você não tem dúvida nenhuma de estar diante de uma pintura, quero dizer, você não busca, como diante de um Courbert, a imagem real pra comparar. Foda-se a fotografia, fodam-se os macetes da tradição, fodam-se os pássaros que iam bicar as uvas no quadro do grego aquele. Os traços e as cores não são mulheres, homens, cavalos e cachorros; são mulheres, homens, cavalos e cachorros de Lautrec. Tudo é atmosfera, tudo é movimento – e como tudo parece vivo, mamma mia.

Lautrec aprendeu tudo o que se pode aprender com as gravuras japonesas, mas não ficou numa reprodução mal digerida, ele as tornou dele. Há nas gravuras japonesas uma espécie de distância entre nós e as imagens, uma distância feita de tempo principalmente. Os pintores japoneses não querem ser originais, eles estão reproduzindo um estilo desenvolvido por séculos e cristalizado numa perfeição que dá uma impressão de quietude ou de eternidade, sei lá. Lautrec aprendeu a economia e a estilização exemplares do traço japonês – e encheu esse traço de inquietação e fluidez, e retratou um cotidiano que parece triste mesmo em cenas circenses. Suas mulheres descabeladas, acordando em camas desfeitas, não podem estar mais distantes da elegância japonesa, mas são infinitamente mais humanas. Dá pra sentir o calor dessas camas, o cheiro dessas mulheres. Dá pra adivinhar se houve sexo na noite anterior e se a ressaca é de absinto. Com algum exagero, dá pra saber se estão devendo o aluguel do quartinho.

Nunca sinto que Lautrec esteja fazendo pose, querendo impressionar, como sinto às vezes em Picasso, mais um malabarista de luxo que pintor em muitas obras. Pra Picasso talvez apenas a pintura importasse ou tivesse uma existência real. Lautrec estava interessado demais nas pessoas, cachorros e cavalos pra pensar em pintura. Essa diferença é má? Não sei. Só sei que, passado menos de cem anos, muito da pintura do Picasso é vista apenas como curiosidade.

Eu não teria coragem de vender um Lautrec.

Autor

Ernani Ssó

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