O sono estava pesado e êle demorou a ouvir o telefone tocar. Sua mão tateou no vazio, antes de alcançar o aparelho, mal reconhecendo a voz do outro lado da linha:
“- É um caso complicado, chefe… mataram a tiros o genro do Barão Dufaure-Verneuils, à noite passada …“.
Ele pretendia dormir mais um pouco, mas lembranças desagradáveis o assaltaram. Estava imaginando a figura do barão, de monóculo e bengala de cabo de prata, circulando pelos boulevares em sua limousine negra.
***
Vestiu-se em silêncio. Bebeu duas xícaras de café diante da janela, fazendo uma careta para o céu cinzento de março, de onde caía uma chuva fria. Quando a mulher avisou que faria um Ragoût D’agneau para o almoço, êle sorriu, fez um gesto vago e bateu a porta. Na rua, parou para acender o primeiro cachimbo do dia e levantar a gola do casacão. No Quai, Lucas esperava diante da lareira acesa. Com um resmungo, sentou-se e estendeu as mãos para se aquecer. Lucas abriu o caderno de notas:
“- O dia promete… Um tal de Marcenac, que é genro do barão, foi encontrado morto …aparentemente, um crime de paixão. E o telefone não pára de tocar. O juiz de instrução quer vê-lo com urgência… diz que o escândalo não deve chegar aos jornais da tarde…”
Ele sabia muito bem que Dufaure-Verneuils era um perssonagem importante da República. Morava no 16º arrondissement, com janelas que se abriam para o Arco do Triunfo e para os jardins do Trocadero. Seu haras era frequentado por grandes nomes e sua mulher, uma Valmont Aigreuse, era referência nos salões parisienses, por seu charme e elegância.
***
O comissário tossiu uma, duas vêzes. Aquele caso tinha tudo para render uma bela dor-de-cabeça… Em vez de se dirigir ao gabinete do juiz, encaminhou-se para a porta, já de chapéu posto. Lucas correu para acompanhá-lo. Um dos carros da P.J. os levou até o Cassoulet, um pequeno bistrot de onde se podia avistar a residência Dufaure-Verneuils. Aboletou-se em uma mesa, o chapéu empurrado para trás. Pediu uma dose de calvados e espiou para a rua molhada, onde os carros deixavam traços retos e limpos como trilhos. Um gendarme caminhava para cima e para baixo diante da porta do palacete. Colocaram à mesa uma bandeja com croissants e xícaras de café. Janvier mergulhou um croissant no seu café au lait e contou o que sabia:
“- Nada foi roubado, como em um crime passional. Ele morreu na hora e as marcas de sangue estão apenas no tapete, onde caiu. Quanto à Mme. Marcenac não está na casa – deve ter saído pela entrada da Rue de l’Yvette. Um carro a esperava e agora… deve estar longe!”
“- Encontraram a arma?”, perguntou Lucas, enquanto se servia do último croissant.
” – Ainda não. Mme. Marcenac provavelmente, a levou.”
O comissário não disse nada. Nem conseguia raciocinar direito, a cabeça doía e sentia uma sonolência invencível. As gotas de chuva desenhavam figuras estranhas na janelas e o gendarme se refugiara no vão de uma porta.
Seu mau humor dissipou-se, ao lembrar de que, dentro de um mês, estaria fora da Polícia Judiciária. Já se imaginava na pequena casa que comprara junto ao Loire. No jardim, plantara melões e tomates ao longo da trilha que descia pelos salgueiros até as margens do rio.
***
Mas agora, era preciso se ocupar destes ricaços que se portavam como donos da cidade. Ergueu-se pesadamente e atravessou a rua até o palacete. Sentiu as pernas tremerem ao escalar a imponente escadaria de mármore. Lucas tocou a sineta e esperaram, enquanto o vento frio jogava gotas geladas em seus rostos.
Entraram em um grande salão, seguindo a empregada de avental engomado, afundando os sapatos molhados nos grossos tapetes.
“- Detesto ricaços”, resmungou Lucas em voz baixa.
Foram levados à uma pequena sala, com mobiliário moderno, flores, quadros e poltronas enormes. Fazia silêncio, um silêncio sombrio que aumentava o desconforto do comissário, que nem notou o juiz de instrução entrar, para anunciar triunfante:
“- Um caso fácil. Falta apenas prender Mme. Marcenac”.
***
O comissário olhava a si mesmo no grande espelho de moldura dourada. Via um rosto pálido, olhos empapuçados. Sentiu o sangue batendo acelerado em suas artérias. Devia estar com febre.
“- Vamos examinar a cena do crime”.
Percorreram salas com cortinas fechadas, onde se sentia o perfume de flores e de madeira envernizada. Mas havia mais alguma coisa no ar – seria o cheiro adocicado de cigarros inglêses?
O morto estava caído de bruços em seu escritório, impecavelmente vestido. A biblioteca, a mesa de trabalho, as paredes decoradas, tudo demonstrava gosto refinado. Nada que combinasse com um crime de paixão. Quando se voltou para o juiz de instrução, o comissário viu que a baronesa Dufaure-Verneuil o fitava com um olhar vazio e sem expressão. Sentada em um sofá baixo, a postura indicando elegância e segurança. Vestida como se fosse à opera, exalava um perfume caro, certamente Galimard ou Fragonard.
Mas o comissário estava muito longe dali – no caminho dos salgueiros, caminhando em direção ao pesqueiro no Rio Loire.


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