“A Natureza é capaz de criar coisas belas
— nós apenas precisamos esperar.”
Franco Biondi Santi
A cada ano que passa, um grande vinho dos ainda existentes no planeta perde os vínculos viscerais com seus criadores. E mais um centenário parreiral da Europa passa a ser controlado por uma corporação multimarca. Por esta e outras, a morte de Franco Biondi-Santi, semanas atrás, na Toscana, encerra um capítulo na crônica de vinhos que fizeram história.
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Biondi-Santi criou e desenvolveu o Brunello di Montalcino, um dos vinhos maiúsculos da Itália e listado entre os melhores do mundo. Defensor intransigente das técnicas tradicionais de cultivo, se recusava a atender às demandas de mercado, que pedia vinhos de menor preço e para consumo imediato. Dizia que o Brunello é um vinho destinado a durar por décadas. Ele devia estar certo, pois uma recente edição da Wine Spectator indicou o Brunello di Montalcino Riserva, de 1955, como um dos 12 melhores do século XX.
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Como costuma acontecer com os grandes vinhos, o Brunello está cercado de lendas e histórias, reais ou inventadas. O mesmo se pode dizer de seu criador, Biondi-Santi, cujo nome se confunde com o vinho que criou e conseguiu manter em um pedestal. Conta-se que, quando a colheita da uva Sangiovese ficava aquém dos padrões criados por seu avô, “Garibaldi” Ferruccio, no século XIX, Franco Biondi-Santi se recusava a engarrafar a safra. Perdia uma fortuna, mas preservava a excelência de seu vinho.
Há décadas, o Brunello é produzido em Il Greppo, a propriedade de 25 hectares, usando os mesmos métodos: 100% de Sangiovese e um mínimo de 5 anos em barris de carvalho. Pela tradição, os grandes vinhos da Toscana passam por um longo tempo de adega, se aprimorando à medida que o tempo passa. Para alcançar o ponto ideal, o Brunello deve ser envelhecido por um mínimo de 10 anos, podendo chegar até 30 anos. É um vinho que tem apreciadores fanáticos, que apregoam suas qualidades para acompanhar pratos clássicos da cozinha italiana, carnes de caça, massas com funghi e queijos fortes, como o toscano Pecorino. O editor da revista Wine Spectator, Bruce Sanderson, que em 2012 concedeu 97 pontos ao Brunello di Montalcino Tenuta Greppo Riserva 2006, escreveu:
“– Este é um vinho para meditação”.
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O enólogo conta de uma recente visita que fez a Il Greppo, quando entrevistou Franco Biondi-Santi. Na ocasião, ele foi conduzido a um local fechado na adega, onde estão guardadas as duas últimas garrafas do Brunello de 1888. Biondi-Santi então declarou que gostaria de esperar até que o vinho completasse 130 anos, antes de bebê-lo. Infelizmente, o patriarca de Montalcino não conseguiu saborear a longevidade de seu vinho.
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