Buenas e me espalho!
Nos pequenos dou de prancha, nos grandes dou de talho!
O célebre rompante do Capitão Rodrigo voltou a ser relembrado agora, com a morte de Tarcísio Meira. Ator ícone no cenário cultural brasileiro, ele é muito incensado por papeis importantes que interpretou ao longo de uma carreira de mais de cinco décadas – e também por ter sido um dos principais, se não o principal, intérprete do mais conhecido personagem de Erico Verissimo.
Bem, e sem demérito algum a Tarcísio e o talento invulgar que sabia exibir, seu passamento me faz recordar que houve um outro grande intérprete do herói da literatura nacional. Chamava-se Francisco Di Franco e brilhou em Um Certo Capitão Rodrigo, filme dirigido em 1970 por Anselmo Duarte, com um bom sucesso de audiência. Santo Amaro do Sul foi a cidade escolhida por Anselmo para rodar a maioria das cenas, algumas delas acompanhadas por mim como repórter da Folha da Manhã.
O casario de Santo Amaro facilitou muito para a reconstituição de época. Bastou retirar os postes da iluminação pública e outros dois ou três retoques para que a pequena cidade do interior gaúcho se transformasse na Santa Fé idealizada pelo escritor, de quem ouvi a exclamação de que era mesmo a cidade ideal. “É tudo igual”, disse Erico, que viveu uma tarde ímpar em junho daquele ano. Foi visitar as filmagens, provocando um momento inusual, quando o autor se encontrou com seus personagens. A visita de Erico foi tão comemorada, tanto pelos cidadãos reais como por seus fictícios, que a cidade parou nesse dia. E mais: vivenciaram um inédito momento, com os personagens literalmente desfilando para o escritor! Foi incrível: na rua principal, todos eles, com o vestuário de época criado para o filme, fizeram uma apresentação especial para seu criador, mesmo desafiando uma chuvinha fina que se arrastou pela tarde.
No desfile, à frente da turma estava Bibiana, interpretada por Elza de Castro, que foi também a primeira a se aproximar de Erico para pedir um autógrafo em sua cópia do roteiro. Logo Nicolau, Maruca e Padre Lara também fizeram fila, assim como o próprio Capitão, que levou para casa a mensagem carinhosa: “Para o Francisco Di Franco, em quem vejo e sinto Um Certo Capitão Rodrigo, com um abraço cordial do Erico”.
Erico se entusiasmou mesmo com a competência da reprodução de seus principais personagens. “São ótimos, estou muito satisfeito com toda esta turma”, ele disse depois do desfile, em um rápido encontro no bar que representou à perfeição o Bolicho do Nicolau. Erico desceu um pouco da sisudez que o caracterizava para interagir com suas criações, e brincou dizendo que não teria coragem de pedir a mão de Bibiana ao Paixão Cortes, o tradicionalista que fez as vezes de pai da atriz.
Paixão, aliás, também mereceria elogios pela participação importante na reconstituição dos usos e costumes de 1820. Eram 1.046 diferentes peças de vestuário, muitas delas originais, buscadas junto ao museu histórico de Rio Pardo. O tradicionalista parecia um dos mais entusiasmados da equipe, e filosofou que a obra não traria um Rio Grande do Sul político, “como muitos talvez esperassem”, mas sim um Rio Grande do Sul social.
Quando apresentado a detalhes da trilha musical idealizada pelo brilhante Paulo Ruschel, Erico só fez um pedido, que certo versinho de sua obra não ficasse de fora. E ele próprio declamou: “Sou valente como as armas/ Sou guapo como um leão/ Índio Velho sem governo/ Minha lei é o coração”. E explicou: “Essa é boa porque dá ideia de petulante e vai ficar como uma obsessão na cabeça da Bibiana”. Bem, se Erico diz, quem haveria de retrucar? E se ele aplaude, não se pode duvidar do lirismo desta composição de Ruschel, espelhando aqueles tempos selvagens do Rio Grande do Sul:
Lá no fim do meu Rio Grande
Onde o sol faz uma noite
Onde a lua faz um dia
Lá no fim da minha terra
Onde a paz se faz com a guerra
Moro eu e a imensidão.



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