Colunas

Um dia sem meu notebook

Não foi assim de repente. Nem foi sem aviso prévio. Os sinais de que algo iria acontecer eram visíveis. Tudo indicava um esgotamento. Um programa que não respondia. A tela que trancava. O monitor não queria mais aceitar janelas divididas. Um site que não ficava aberto. E começou assim um silencioso (nem tanto) boicote do meu notebook. Mas eu insistente (coisa de geminiana) achei que podia ir levando, que ele não iria me abandonar. Não às vésperas de eu escrever a coluna para o site. Sim, sou um tanto analógica. Não consigo fazer textos no celular.

Na semana passada, apurei com a escrita da coluna na quarta-feira de tarde (ela só é publicada na quinta-feira), porque, algumas vezes, o notebook mostrou sintomas de cansaço e não queria de jeito nenhum me obedecer. Desligava a máquina (como os técnicos gostam de chamar) e a reiniciava. Às vezes, o truque dava certo. Mas era uma jogada de sorte.

Como ainda utilizo o mouse, cheguei a pensar que era ele, coitado, o problema. Afinal, fiz as contas e conclui que ele já soma uns oito anos. Talvez fosse o tempo de vida útil do mouse avisando que ele estava no fim. Bora mexer num extra do orçamento para adquirir um novo mouse. Tão bonitinho, de cor escura, mais imponente. Só que não era a troca de mouse a solução.

Na segunda-feira de noite enquanto eu olhava uns sites de notícias, deu-se o fato. O notebook trancou e não queria mais operar. Entrou em greve pedindo pagamento de horas extras e equiparação salarial com o celular. Pane total. Nem desligar mais o aparelho eu consegui. Era chegada a hora de procurar a assistência técnica e pedir, por favor, por gentileza, se possível, uma urgência no serviço.

E então me separei do notebook, depois de anos e anos de uma convivência harmônica.

Tratei de colocar algumas leituras em dia, organizar armários, renovar o estoque de incensos, ver filmes nos canais de streaming, grudar os olhos na televisão para saber das notícias. Ficar mais na rua passeando com o cachorro. Tudo para passar o tempo e diminuir o sentimento de abstinência.

Foram quase dois dias sem o notebook. O técnico disse que ele precisava de uma boa limpeza, uma atualização de software e aconselhou que eu não sobrecarregasse demais a máquina. Se possível, quando sobrasse algum dinheiro, aumentava a memória do aparelho.

Incrível e inexplicável como a gente se torna refém da tecnologia. Como ficamos completamente desasados sem o conforto do digital. E pensar que há algum tempo atrás, se vivia tão analogicamente.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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