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Um flâneur à janela

Naquela manhã da primavera de 1968, o Viajante desembarca na Gare du Nord, cheio de planos para revisitar a cidade de seus sonhos. O …

Naquela manhã da primavera de 1968, o Viajante desembarca na Gare du Nord, cheio de planos para revisitar a cidade de seus sonhos. O taxi que o conduz até o Quartier Latin não é dos mais limpos e o motorista argelino dirige como um piloto de rallye. Mas ele não se perturba – Paris está luminosa, uma barcaça azul que sobe o Sena apita longamente e ele seria capaz de jurar ter ouvido a voz de Charles Aznavour, vinda de uma varanda aberta ao sol.

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Entra no hotel e indaga se o 21 estava disponível. Continua com sorte – podia ficar no mesmo quarto onde estivera uma vez. O quarto é minúsculo, como ele bem lembrava, mas tem um luxo único. Abre a janela de par em par – lá está, bem à frente, a cúpula gótica da Sorbonne e, do outro lado, o Boulevard Saint-Michel, como sempre, movimentado por estudantes e turistas. Abre a mala e estuda o mapa de ruas. Repassa, pela undécima vez, os roteiros há muito planejados, que replicam os passos de Charles Baudelaire e Edmund White, os flâneurs que transformaram suas caminhadas em viagens de descobrimentos.

No século XIX, Paris ingressava nos tempos modernos, devassando horizontes e criando novas relações entre a cidade e as pessoas. O poeta Charles Baudelaire escreveu que a modernidade convidava aos encantos dos novos boulevards e à redescoberta dos labirintos dos velhos quartiers.

Mais tarde, o escritor alemão Walter Benjamin repete a metáfora do labirinto, invocando a alma antiga da cidade que se transforma. O flâneur seria um minotauro moderno, percorrendo vielas e ruas estreitas em busca de revelações. Alguns impressionistas também veneravam os cantos ocultos na cidade. Enquanto Degas pinta bailarinos e bastidores de teatros, Toulouse-Lautrec revela as cores e os movimentos dos cabarets. E Camille Pissarro, deslumbrado, escreve ao filho Lucien:

É um grande prazer estético tomar as ruas de Paris, tão prateadas, luminosas, vivas e plenas. Penso que nunca conseguirei pintar tudo que vejo”.

Possuído por paixão parisiense, o norte-americano Edmund White escreve sobre a cidade onde morou por 16 anos. Ao mesmo tempo em que reinventa a arte da flânerie, estuda a obra de Charles Baudelaire e publica uma elogiada biografia de Marcel Proust. White vagava por ruas e pelos cais do Sena citados pelo poeta e pelo escritor, mas desconhecidos de visitantes e até de seus moradores. Dizia que caminhava sobre os paradoxos de Paris.

Um dos paradoxos: a mesma cultura que inventou a flâneurie também nos deu Descartes. E a mesma Paris que se entrega à futilidade e ao capricho, cultiva o cálculo e a lógica nos bancos da Sorbonne. E também celebra a limpidez e clareza dos horizontes do Barão Haussmann. O flâneur de Charles Baudelaire, revisitado por White se detém na estética de um monumento esquecido em uma pequena praça, mas não perderá seu tempo nos grandes magazines. Ao longo do caminho procura no Marais vestígios da trajetória dos judeus e sabores africanos nas backstreets da Rive Gauche. Se demora alguns minutos diante da casa de Victor Hugo na Place des Vosges e, mais tarde, procura o 74 da rue du Cardinal Lemoine, o primeiro endereço de Ernest Hemingway em Paris.

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O Viajante desce à praça, se preparando para a caminhada do dia, quando sente uma forte eletricidade no ar. A praça parece mais agitada, pessoas quase correndo em direção à Place Saint-Michel, de onde chegam vozes alteradas. Na banca da esquina, os jornais do dia se esgotam rapidamente. A manchete da edição francesa do International Herald Tribune ” anuncia:

“Il est interdit d’interdire“.

A frase era de Daniel Cohn-Bendit, em explosiva entrevista em que convoca greve dos estudantes, como protesto contra o fechamento das aulas na Sorbonne. No France Soir, os sindicatos operários anunciam uma grande passeata de apoio aos estudantes. Da janela do hotel, o Viajante vê os cafés do Boulevard Saint-Michel fechando as portas e grupos de estudantes ocupando a praça. Na televisão, o estressado apresentador anuncia que o Palais de lÉlysée acaba de convocar a Guarda Republicana.

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Chega o 13 de maio. Enquanto um flâneur volta frustrado para casa, um milhão de pessoas marcha ao longo dos boulevards de Paris, cantando:

Adieu, De Gaulle, adieu!“.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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