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Um homem ordeiro

Ninguém poderia dizer, de sã consciência, que Monsieur Silvain era uma pessoa excêntrica. Bem ao contrário, ele era absolutamente centrado, talvez até em excesso, …

Ninguém poderia dizer, de sã consciência, que Monsieur Silvain era uma pessoa excêntrica. Bem ao contrário, ele era absolutamente centrado, talvez até em excesso, sempre obcecado por ordem. Em sua mesa no escritório onde trabalhava, os objetos e papéis estavam arrumados em simetria perfeita. Os lápis apontados, em ordem por tamanho e cores. As pastas com documentos estavam empilhadas por ordem de chegada. Havia dois carimbos do lado direito da mesa, um com a data de entrada e outro com a data de saida. Nada na vida de Matheus Silvain parecia estar fora do lugar.

***

Mas ele não se sentia um homem realizado. Sua compulsão pela ordem o perseguia constantemente e o deixava contrariado, ao constatar que o mundo ao seu redor vivia em completo desarranjo. Não entendia como as pessoas não se importavam em deixar as coisas fora do lugar, jogadas em qualquer parte, um caos total.  Mas ele se esforçava ao máximo para corrigir a desarmonia deste mundo. Como gostava de ler, passava parte do tempo em uma biblioteca pública nos boulevards. Ali, lera os clássicos antigos, como Heródoto e Platão e, no momento, estava interessado nas obras de Plutarco e de Agostinho de Hipona. Do grande teólogo, gostava de repetir uma de suas frases favoritas:

“Onde não há ordem, não pode existir beleza”.

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Matheus Silvain gostava de circular entre as prateleiras de livros  da biblioteca e ficar por horas nas silenciosas salas de leitura.    Sua preferência era pela saleta dos fundos, com janelas para o Sena. Ele sentia-se bem ali – era pouco frequentado e ele podia admirar com calma os retratos de grandes escritores e as gravuras antigas nas paredes. Na verdade, graças aos seus cuidados, os retratos e gravuras estavam perfeitamente alinhados e dentro do esquadro. Mas o mesmo não se podia dizer das prateleiras das salas de leitura. As pessoas recolocavam os livros em qualquer lugar, de cabeça para baixo e até com a lombada virada para dentro. Ele mesmo já havia encontrado livros de botânica na seção de história e antologias poéticas misturados com tratados de geografia. Mas, depois de muitas tentativas, finalmente se convencera que era inútil tentar organizar aquelas estantes.      Para cada livro ele colocava no lugar, outros dois ou três eram largados sem nenhum cuidado.

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Quando ele começou a frequentar os museus de arte do quartier, visitados por raros turistas e estudantes de arte, notou que os vigias e zeladores passavam o tempo cochilando em suas cadeiras, sem prestar atenção aos visitantes. Nas paredes, havia centenas de pinturas pouco famosas e às quais ninguém dedicava mais do que um rápido olhar. E, muitas, penduradas tortas e fora de esquadro. Era evidente que as faxineiras tiravam o pó das molduras e não corrigiam a posição dos quadros.

Matheus Silvain percebeu que ali havia muito por fazer.

***

A polícia não sabia como lidar com aquele homem de aparência respeitável. Ele se dizia inocente, alegando que notara a pintura fora de esquadro e que estava apenas tentando recolocá-la no prumo. E jurava não saber que os novos alarmes do Louvre eram sensíveis ao menor toque.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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