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Um jantar perdido

Chegou em casa sentindo-se exaurido. Estrelas dançavam diante dos olhos e os dentes batiam de frio. Na sala, ele viu que a mesa estava …

Chegou em casa sentindo-se exaurido. Estrelas dançavam diante dos olhos e os dentes batiam de frio. Na sala, ele viu que a mesa estava posta – a mulher havia preparado ‘Jarret de Porc aux Lentilles’, seu favorito para as noites de inverno. Ao lado, uma garrafa aberta de Grenache Rouge. O relógio da parede bateu as nove horas. A esta altura, mais um assassino estava trancado na cela no Quai. Enquanto isso, em seu palacete neo-clássico, uma certa baronesa amargurava   a derrota. Ele pediu uma bolsa de água quente e foi se deitar. Em poucos minutos, dormia o doce sono dos justiceiros.

***

Desde o início da manhã era evidente que a investigação estava confusa e mal encaminhada. Era sempre assim, quando um crime envolvia figurões que moravam nos grandes boulevares. Ele bem que gostaria de estar longe dali, na Brasserie Dauphine, com um copo de cerveja da Alsácia à sua frente. Notou que nem os investigadores veteranos escondiam a ansiedade diante daquele caso. Falavam alto demais e o tom quase histérico deixava o ambiente ainda mais tenso.

O aquecimento central estava no máximo e ele retirou o sobretudo e  o cachecol. Sentou-se à mesa e viu que seus cachimbos estavam na ordem que gostava. Tentava pensar no caso do diplomata assassinado, mas a febre o impedia de raciocinar direito.

***

Os interrogatórios, no palacete Dufaure-Verneuil, haviam sido cansativos e pouco produtivos. Era certo que os empregados sabiam mais do que contaram aos inspetores. Na enorme cozinha, a bateria de panelas de cobre brilhava sobre o fogão. Quando entrou, o casal de empregados interrompeu o almoço, desconfiado. Ele pediu:

“- Uma xícara de café quente e dois comprimidos de aspirina”.

O homem desapareceu por uma pequena porta lateral. A mulher colocou uma xícara fumegante na mesa.

“- Ele é Julian, o motorista e maitre. Eu, Renée, a cozinheira”.

Se fez silêncio na cozinha. O casal voltou a comer. Ele sentia o fogo nas costas, tomou o café, engoliu as aspirinas. Viu uma baguette em fatias sobre a mesa. O pão era fresco, crocante. Serviu-se de um naco de manteiga e de um pedaço de presunto cru. Mastigou com gosto.         Sentiu falta de um gole de vinho. Julian perguntou:

“- Vão prender a madame?”                                                         

Ele não respondeu, mas a pergunta o incomodou. Olhou para a mulher:

“- Digam tudo o que sabem”, disse, sem parar de mastigar.

“- Nós não sabemos muito, Monsieur. Fomos despertados às cinco da manhã pela baronesa, avisando que seu cunhado estava morto e que a outra madame havia atirado no marido e fugido pela porta da Rue de l’Yvette.”

“- Quem é a outra madame?”. 

“- A filha da baronesa, madame Marcenac”.

O caso estava ficando cada vez mais confuso. Muitos personagens e poucas pistas. Ele ergueu-se, impaciente.

“- Posso ver o quarto de madame?”

Os aposentos de Mme. Marcenac eram amplos, confortáveis, mas decorados frugalmente – uma cama antiga, duas cadeiras, um armário de mogno. No ar pesado, sentia-se um perfume intenso de violeta. Painéis nas paredes e o teto era decorado com anjos seminus. Havia algo junto à janela que chamou sua atenção. Ele abaixou-se, passou os dedos na madeira e cheirou o líquido. Praguejou baixinho.

Desceram em silêncio para a cozinha. Mãos nos bolsos, viu que Julian limpava um par de sapatos de salto alto.

“- São de Mme. Dufaure-Verneuil?”.

“- Isso mesmo”, respondeu Julian. “- E estão novamente sujos de barro.”

***

Lucas chegou com noticias sobre a investigação. Saíram para a rua.   O tempo estava clareando, com nesgas de sol frio. Caminharam até um bistrot próximo, o La Cassolette, que estava quase vazio. O comissário pediu um calvados e ouviu o que Lucas tinha por dizer. Não era muito – os fatos ainda não se ajustavam, havia alguma coisa faltando. Ou seria a gripe que o impedia de pensar com clareza?

Cotovelos sobre a mesa, impenetrável, ele acendeu o cachimbo e fumou em pequenas baforadas. Lentamente, os fatos começaram a fazer sentido. Pediu mais um calvados e finalmente entendeu o que acontecera no palacete. Ele cometera um grande engano, ao ficar intrigado com os sapatos sujos de barro da baronesa.

A chave do mistério estava no perfume de violetas.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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