Setembro, 1973. Manhã fria de Primavera, em Santiago. O dia: 11 de Setembro. Os militares consumam um golpe já anunciado. Eles derrubam e matam o presidente constitucional Salvador Allende. E encerra a curta experiência de socialismo democrático no Chile. Começa, ali, uma longa ditadura. Com efeitos visíveis, por lá, até os dias de hoje.
Na vizinha Argentina – e um pouco por toda a América Latina – as notícias vindas de Santiago começam a chegar pelo rádio e pela televisão. A professora Adriana Vega deu depoimento curto. E emocionado:
“Era o Dia do Professor na Argentina. Um feriado bem-vindo, que desfrutávamos em casa com os parentes. (…) Uma ex-aluna, Paloma, telefona para dar com voz abatida uma notícia terrível. Algo estava acontecendo no Chile:´Olha, liga a tevê, liga o rádio. Rápido. A coisa está feia´”.
“Os aviões, na telinha, atordoavam, atacavam, e demoliam. O povo, atônito e disperso pelo espanto e pelo assombro, corria pelas ruas e avenidas. Para fugir dos incêndios e das balas. Estava ainda iludido com o socialismo que o dileto Presidente havia proposto” (mais detalhes deste texto em: [email protected]).
Já o grande escritor e jornalista colombiano Gabriel García Márquez tem também uma versão e um depoimento sobre aquele 11 de Setembro. Escreveu Gabo:
“Perto das quatro da tarde, um general de divisão conseguiu chegar até o segundo andar [do Palácio presidencial de la Moneda], com seu ajudante e um grupo de oficiais. Salvador Allende esperava por eles. Na cabeça, um capacete de mineiro. Estava em mangas de camisa. Sem gravata. E com a roupa suja de sangue. Estava com uma metralhadora na mão (…) Tão logo viu surgir o general na escadaria, Allende gritou: ´Traidor´. E feriu-o na mão. Allende morreu na troca de tiros com essa patrulha”. (Revista “Porém”, de Porto Alegre, edição de Setembro/Outubro de 2003).
NERUDA NÃO SOBREVIVE
Dizem que Allende, na hora da morte, levava enrolada no corpo uma bandeira do Chile. E, simbolicamente, carregava nas mãos um verso de Pablo Neruda, de seu livro “Canto Geral”.
Pois, Neruda, amigo de Allende, já adoentado e profundamente abalado pelos acontecimentos daquele 11 de Setembro, morreu dias depois (23/09/1973), em sua casa em Isla Negra. Tinha 69 anos. O enterro do escritor Prêmio Nobel de Literatura motivou uma derradeira manifestação pacífica de milhares de admiradores, apesar do cerco militar em torno do Cemitério Central de Santiago do Chile.
Pablo Neruda, um comunista e um romântico, escreveu em ´Canto General´ (Editora Seix Barral, Buenos Aires, 1997) alguns versos considerados hoje em dia até proféticos. E descritos à época da publicação (1948-1949) como obra de um visionário:
Nadie sabe donde enterraron/
Los asesinos estes cuerpos/
Pero ellos saldran de la tierra/
“A cobrar la sangre caída/
En la ressurrección del pueblo”.
Mais que poeta e escritor consagrado, e herói político entre seu povo, Neruda ainda hoje é considerado um visionário por parte da crítica literária ocidental. De fato, enquanto muitos de seus trabalhos são engajados e políticos, ele é mais conhecido mundialmente, no Oriente e no Ocidente, por versos onde exalta o amor e a Mãe Natureza.
Cônsul chileno em Barcelona, envolvido diretamente no turbilhão da Guerra Civil de 1936, sofreu à época com o fuzilamento de amigos republicanos, capturados pelas tropas do generalíssimo Francisco Franco. Um deles era o também poeta, o célebre espanhol Federico García Lorca. Eram os anos difíceis, um prenúncio da Segunda Guerra Mundial – já visível no horizonte de então.
Em 1941, a grande ofensiva das tropas nazistas contra o território da União Soviética e a expansão global do conflito em todos os continentes habitados encontram o poeta no Consulado Geral do Chile, na Cidade do México.
Os acontecimentos mundiais acentuam seu engajamento político pela via da esquerda. Em 1945, Neruda se filia, oficialmente, ao Partido Comunista do Chile. Em sua obra “Canto Geral”, ele exalta os líderes indígenas da América Latina. E os demais heróis. E as batalhas históricas e seus desdobramentos através deste Continente. Mas o poeta só conclui o livro já no exílio. É que, em 1948, a Guerra Fria se acirra entre os dois pólos de poder da época: os Estados Unidos capitalistas e a União Soviética socialista. Assim, os comunistas são banidos do cenário político chileno. E Neruda os acompanha, para viver muitos anos fora de seu país.
O poeta e diplomata teve uma vida de aventuras. Mas difícil. Como dele escreve o seu tradutor , o escritor gaúcho José Eduardo Degrazia, em prefácio à obra “Cantos Cerimoniais” – em primorosa edição bilíngüe de sua própria lavra:
“Passando pelo jovem poeta vestido de negro de sua fase simbolista, e a carreira diplomática no distante Oriente nos anos 20, e sua participação apaixonada na Guerra Civil Espanhola, Neruda viveu intensa e integralmente. E com grandes dificuldades”.
UMA OBRA DISPONÍVEL
A obra de Pablo Neruda está ao alcance dos leitores brasileiros. A maior parte dela através da coleção L&PM Pocket. Além de “Cantos Cerimoniais”, já citado, livrarias e supermercados em todo o território nacional oferecem estes lançamentos mais recentes da casa editora gaúcha:
“As Uvas e o Vento”
“O Coração Amarelo”
“Elegia”
“Livro das Perguntas”
“A Rosa Separada”
“Jardim do Inverno” e
“Residência na Terra” (em dois volumes).
E já concluo: neste 11 de Setembro de 2006, todos nós certamente iremos receber – via TV, rádio, Internet e os jornalões da grande mídia corporativa – uma autêntica avalanche de notícias, análises e memórias do 11 de Setembro nos EUA, por ocasião da passagem dos cinco anos daquele trágico evento. Um dia que transformou em definitivo o atual cenário global. E que, para alguns, já representa o verdadeiro começo simbólico deste nosso século 21.
Mas, aqui na América Latina, permanece viva – e em carne viva – a lembrança daquele outro 11 de Setembro, passados agora 33 anos. Os sobreviventes daquele dia e dos anos subseqüentes subscreveriam o depoimento especial da professora argentina Adriana Vega, em artigo especial para a agência ANC de Buenos Aires:
“Rios de degelo derramavam-se pelas montanhas cor de sangue. E as uvas tornavam-se um vinho azul. E as lágrimas de sangue eram vertidas com ardor pelos excluídos. Pelas ruas principais de Santiago – a Cordilheira à sua esquerda e o Pacífico golpeando à sua direita – viu-se então Don Salvador avançando rumo ao Sul, pelo estreito caminho que é a sua terra”.
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