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Um parisiense chamado Dietrich

Ninguém sabe ao certo as palavras usadas pelo general Alfred Jodl, quando interpelou, de Berlim, seu colega Dietrich von Choltitz, em Paris, naquela sombria …

Ninguém sabe ao certo as palavras usadas pelo general Alfred Jodl, quando interpelou, de Berlim, seu colega Dietrich von Choltitz, em Paris, naquela sombria manhã de 25 de agosto de 1944. Mas, de acordo com os jornalistas Larry Collins e Dominique Lapierre, foram poucas e terríveis palavras:

“ – Paris está em chamas?”.

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Dos vários relatos sobre a liberação de Paris, poucos possuem a riqueza documental e a qualidade narrativa de “Is Paris Burning?”, que resgata os acontecimentos que precederam a entrada dos aliados na Cidade Luz. O título do livro repete a célebre pergunta do Chefe do Estado Maior da Wehrmacht ao Comandante Militar  em Paris. Foi Alfred Jodl que expressou a reação de Adolf Hitler, ao saber que a Cidade Luz, conquistada tão facilmente em junho  de 1940, estava em vias de ser liberada pelos Aliados.

O livro de Collins e Lapierre foi escrito em 1965 e filmado no ano seguinte, pelo mestre René Clement, com roteiro de Gore Vidal e Francis Ford Coppola. O filme desfilava um elenco de estrêlas: Orson Welles, Simone Signoret, Anthony Perkins, Charles Boyer. Jean-Paul Belmondo, Leslie Caron, Alain Delon e Daniel Gélin  fazem os membros da resistência francesa. Kirk Douglas e Glenn Ford são os conquistadores George S.Patton e Omar Bradley, enquanto Hannes Messemer e Gert Fröebe, os generais nazistas Alfred Jodl e Dietrich von Choltitz.

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Is Paris Burning?” se vale de cine-documentários para ilustrar momentos climáticos, como o desfile dos nazistas nos Champs Elysées e a entrada na cidade, quatro anos mais tarde, do general Charles De Gaulle e seus combatentes. Para completar a narrativa do que aconteceu naqueles dias de sombra, René Clement filmou em preto-e-branco. Na verdade, o governo francês havia decidido que – mesmo em filme – as cores originais das bandeiras nazistas nunca mais seriam hasteadas em Paris.

Em junho de 1944, o penúltimo verão da II Guerra, a França vivia um momento crucial de sua história, com Paris ocupada e os Aliados desembarcando na Normandia. A ordem para explodir a cidade chegou ao mesmo tempo ao Comando Militar alemão, no luxuoso Hôtel Maurice e ao Abwehr, o centro de contra-espionagem do Almirante Canaris, instalado no Hôtel Lutetia, no Boulevard Raspail. Em poucos dias, a marinha alemã posicionou torpedos e explosivos nas pontes, monumentos e prédios históricos.

Entretanto, Dietrich von Choltitz hesitava em dar a ordem que reduziria Paris a escombros. Oficial da velha guarda e veterano da frente russa, o general estudara os feitos militares de Napoleão e jantava todas as noites no restaurante do Maurice.

René Clement usa de mão leve ao dirigir o filme, mostrando tanto o despreparo e desorganização da resistência, como a relutância dos generais alemães em cumprir as ordens de Berlim. Até se permite uma vinheta de ironia, quando dois oficiais da SS visitam von Choltitz. Ele receia que venham prendê-lo, por conta do fracassado atentado contra Hitler. Mas, fica aliviado ao saber que  estão em busca de uma rara tapeçaria exposta no Louvre, que o marechal Göering deseja dar de presente de aniversário à Hitler. Ao saber que a tapeçaria mostra a invasão da Inglaterra pelos normandos, comenta:

“ – Já que não temos uma invasão de verdade…”.

No dia 25 de agosto, Dietrich von Choltitz e seus 17 mil homens se rendem ao general Philippe Leclerc e ao líder da resistência, Henri Rol-Tanguy, em cerimônia na histórica Gare Montparnasse.

O romance de Larry Collins e Dominique Lapierre é uma estória sobre coragem e destemor, onde não vemos falsos heróis, mas apenas combatentes e sobreviventes.

Os invasores se retiram, os resistentes festejam a liberdade e o grande sino de Notre Dame volta a soar. Paris está salva, graças a um prussiano chamado Dietrich que se recusou a repetir Stalingrado, não dando a ordem que reduziria a cinzas o Louvre, a Tour Eiffel, o Arco do Triunfo – e a tumba de Napoleão.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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