O andar mais cansado de quem não carrega mais só a história da adolescência dos 20 e poucos anos e outras pequenas encrencas da maturidade tornam alguns passeios, antes tão atrativos, menos convidativos e cativantes. Foi o que ocorreu com a minha primeira visita à 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, no meio da semana passada, no final de uma tarde tumultuada de um dia de trabalho. Nem as ofertas dos livros, em quantidades e qualidades surpreendentes, nem os preços das publicações jogadas nos sebos e nem mesmo as possibilidades de orgias gastronômicas conseguiram fazer com que permanecesse mais que duas horas na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre.
Sei lá. Mas parece que os compromissos começam a ficar mais pesados com a chegada de pequenas dificuldades da idade. Como a necessidade de observar tudo o que se apresenta a nossa frente com o auxílio dos óculos porque até os olhos já estão também cansados e fatigados, a maior dificuldade em percorrer três ou quatro vezes o mesmo trajeto, no caminho repetitivo de ir e vir, e uma pressa com caráter doida de urgência porque a vida não é mais tão duradoura e o nosso tempo é efêmero.
Não fosse o convite e a insistência da incansável Lili, que sempre articula pequenos encontros, e a vontade de rever rostos de outras etapas da vida, o caminho para o lar se mostraria muito mais insinuante. Para reencontrar as amizades sumidas nos descaminhos da rotina, superei a vontade de sair direto do trabalho para casa, esticar as pernas sobre o sofá depois de um banho aconchegante, receber os carinhos do neto canino shih tzu Dalai, e me agarrar no controle remoto em busca de opções de divertimento na televisão aberta ou fechada. Enfim, a entrega aos momentos de sossego caseiro foi soterrada.
O passeio pelas barracas da Feira do Livro, que se encerra no dia 16 de novembro (próximo domingo), foi rápido, até para não sucumbir às tentações das ofertas e aumentar o aperto financeiro (deixei os cartões de crédito e outros facilitadores em casa). O ato de perambular pelos cantos e encantos da praça, que nos seduzem com o perfume das paineiras, ipês e jacarandás, ficou reduzido até o local em que me permiti um chope gelado e um pequeno sanduíche com as gurias (todas com mais de 40 anos) sempre cheias de novidades.
A conversa com as amigas foi proveitosa, o encontro elegante, mas o tempo, como sempre ocorre quando se pensa que tem muito pouco tempo, insuficiente para colocar todo o assunto em dia. A saudade foi servida em generosos copos de chopes, parte da fome do final de tarde disfarçada com pedaços do sanduíche e novas e promissoras agendas foram acertadas. Não para a feira de 2015, mas quem sabe, antes do Natal, no Ano Novo, carnaval. Tudo com caráter de urgência.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial