Leio no site do The Wall Street Journal que grandes empresas (Procter & Gamble, Unilever, Kimberly-Clark) estão investindo no eye-tracking, que é a leitura da retina dos consumidores para melhor entender suas reações frente a produtos e anúncios. Isto foi gerado porque entende-se que as pesquisas e mesmo os grupos realizados não são suficientes. Nos grupos de clientes, as empresas se esforçam por agradar o consumidor e este, mesmo que não tenha gostado do produto apresentado, acaba por dar uma opinião favorável. Mas esta não se confirma posteriormente, na venda do produto. O consumidor acaba por não comprar.
Sinceramente, entendo a preocupação das empresas, mas prefiro não ser rastreado neste nível. Um mínimo de mistério é necessário e saudável. Não quero ser um livro aberto às empresas. Quero que se esforcem por entender a minha mente. O que, na verdade, nem mesmo eu entendo.
Se os seres humanos ficarem todos rastreados, tiverem seus olhos escaneados, não haverá mais surpresas e o mundo ficará muito chato. Enfadonho e cansativo. Não é assim com os relacionamentos? Quando não há novidades e surpresas, quando as trocas escasseiam, acaba a parte interessante de um relacionamento. O legal é que o ser humano tem uma capacidade infinita de surpreender, de se renovar e tirar um coelho da cartola, lá pelas tantas.
Além disto, considero que tenha algum valor o que eu penso. Então, não quero ser escaneado e revelado, tal qual os filmes de antigamente. Quero sempre imaginar que tenho novidades, caminhos diferentes do previsto a seguir, idéias novas, entendimentos diferentes, ângulos mais agudos.
Já chega saber tudo o que as pessoas que estão no Facebook estão fazendo e pensando. Grande parte dos posts nas redes sociais são muito interessantes. Para quem os posta. Então, vamos parar de se revelar tanto, gente. Vamos pensar mais. Refletir mais. Ler mais. Vamos ser mais introspectivos. Vamos guardar nossas opiniões – por um tempo, até que se tornem mais maduras e interessantes – para nós mesmos. Nem todos têm interesse o tempo todo por tudo.
Um pouco de mistério, de não revelado, de inesperado, é indispensável na vida. Assim como só sabe mesmo amar quem tem alguma coisa de triste. Vou fechar os meus olhos agora, para não ser escaneado. E vou aproveitar para refletir e pensar em um mundo onde os olhos continuem sendo as janelas da alma. Mas que eu possa fechá-las, se quiser.

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