Porto Alegre me ofertou, no entardecer de sábado (24), um presente inesquecível. Ou melhor. Elisquecível. Com o testemunho do Guaíba, que atende por lago, rio ou estuário, conforme o seu humor, a companhia acalorada de 60 mil pessoas, e um sol que se deixou encantar com o que se anunciava e hesitava em partir. Neste cenário, Maria Rita fez a mais bela e emocionante homenagem a sua mãe, Elis Regina, na capital em que choram Marias e Clarices os 30 anos da morte da maior cantora deste país. Porque Elis sempre será Elis, Maria Rita soltou a voz nas estradas e hipnotizou os fãs de todas as faixas etárias que ocuparam o Antiteatro Por do Sol para o show “Viva Elis 30 anos”.
A perfeccionista Maria Rita sabia que sua pretensão de cantar Elis Regina naquilo que ela mesma classificou como uma singela homenagem poderia ter uma interpretação errônea. Com menos de 10 anos de carreira musical, Maria Rita precisava viajar, em pouco tempo, pelo repertório imenso e variado de sua mãe e selecionar exemplares preciosos de cada fase da Pimentinha. Mais do que nunca, não era só preciso cantar. Essa mulher, essa senhora tinha a certeza de que o show de estreia, na terra natal de Elis, era um balizador das suas escolhas no repertório, nos gestos, na roupa, nas frases, nos sorrisos.
Vestida de branco esvoaçante, no início, e colante, no decorrer da apresentação, ela trajou-se de doçura, firmeza e afinou como nunca a sua voz. Afinal, cantava talvez para se despedir das águas de março que deixavam o verão. Embargada pela emoção, não conteve as lágrimas entre os blocos quando falava da mãe que se despediu da vida quando Maria Rita recém completara quatro anos. Afinal, Elis Regina ficou na memória dos seus fãs feito uma tatuagem, que pesa feito cruz, cicatriz risonha e corrosiva, marcada a frio, a ferro e fogo. E na Maria Rita, feito uma tatuagem de corações de mãe, que lhe rabiscou o corpo e lhe poliu a voz.
E por saber que quem cala sobre as memórias de Elis consente na sua morte, Maria Rita deitou e rolou para relembrar os sucessos de sua mãe. Brincou com a voz na sensual “Me deixas louca”, mexeu os braços em movimentos desconexos e desengonçados na divertida “Aprendendo a jogar”, abusou dos trejeitos na música “Alô, Alô, Marciano”. Deu para cada sucesso na voz insuperável de Elis, um arranjo, um toque diferente. Como se aquele show fosse apenas uma brincadeira de roda, o suor dos corpos na canção da vida, o suor da vida no calor de irmãos.
Elis Regina é e sempre será Elis Regina. E Maria Rita é Maria Rita. Mas impossível não enumerar as semelhanças na maneira de cantar, o bom gosto na seleção das músicas, o jeito totalmente desajeitado de mexer o corpo das duas, a risada escrachada, a resposta pronta e sempre desafiadora para qualquer assunto. A maneira de ondular o cabelo quando diz que aqui na terra a coisa “tá ficando russa”. O engajamento político, mesmo quando Elis Regina se negava a qualquer participação partidária. A preocupação excessiva com os detalhes. As mãos espalmadas pedindo coro. O aplauso frenético de uma mão contra o braço. São detalhes. São similaridades. É a herança. O que se traz por dentro não se nega.
Por isso, deixei o local, passando das 20h30min de sábado, junto com o arrastão que entrou na Avenida Praia de Belas, pedindo que Iemanjá abençoe Maria Rita e que, de vez em quando, ela se permita cantar novamente mais músicas da mãe nos seus shows. E com a certeza de que Nosso Senhor do Bom fim jamais viu tanta perfeição assim.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial