“I can’t remember where or when…
Some things that happen for the first time,
Seem to be happening again.” (“Where or When”, 1937)
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O táxi entra em Manhattan em meio ao pesado tráfego de final de tarde. A Broadway já está iluminada e longas filas se formam diante dos teatros. No rádio do táxi, o locutor da WCBS assume seu melhor tom solene e despeja a notícia – Richard Rodgers, o celebrado autor de memoráveis musicais e de algumas das mais encantadoras canções do cinema, faleceu em seu apartamento na Quinta Avenida. É dezembro de 1979 e uma chuva gelada começa a cair sobre New York.
No lobby profusamente iluminado e aquecido do hotel, eu acompanho inquieto as negociações do concierge porto-riquenho ao telefone. Ele segura na mão meus 200 dólares e tenta um improvável ingresso para South Pacific, em sua última semana na Broadway. Mas o homem não desiste e jura que seu bookmaker nunca falha. Vou até o bar, de onde chega um solo de jazz, tocado por alguém que sabe muito bem o que está fazendo.
É um pianista negro que veste um gasto smoking jacket. O bar ainda está vazio, mas ele toca como se estivesse no palco do Carnegie Hall. De perto, parece ter mais de 60, lembra Erroll Garner, com seu rosto vincado e muitos invernos nos cabelos.
Alguém me disse, certa vez, que músicos de jazz sempre têm estórias de vida para contar. Na primeira pausa, me aproximo do pianista, enfio cinco dólares na taça sobre o piano e digo-lhe que Richard Rodgers está morto.
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O Erroll Garner parece não acreditar. Toma um grande gole de seu bourbon e começa a dedilhar velhas melodias de Rodgers. A primeira é o clássico “Bewitched, Bothered and Bewildered”, que marcou época em 1940. Depois, vem My Funny Valentine, que já foi cantada por Chet Baker, Frank Sinatra e Miles Davis. E emenda com “Isn’t Romantic?”, de 1932, tornada famosa por cantores como Peggy Lee, Mel Tormé e Dean Martin.
O bar agora está quase cheio, mas poucos prestam atenção aos arranjos de jazz que brotam do piano. Estão entretidos com seus dry martinis e suas damas de decotes profundos. O pianista faz uma pausa, bebe bourbon e fala da vida de músico. Conta que tocava em hotéis baratos de Chicago, até desembarcar em New York, para tentar uma vaga nos grandes teatros da Broadway. Acabou como pianista reserva no bar do antigo Roosevelt Hotel, na Madison Avenue. Tocava com músicos e cantores anônimos, até que seu momento de glória chegou. Uma noite, o titular adoeceu e ele foi chamado para acompanhar ao piano ninguém menos do que Ella Fitzgerald.
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Quando me dou conta do tempo, já é hora dos shows começarem. O concierge porto-riquenho foi embora e só voltará no dia seguinte. Saio para a chuva, caminhando em direção às luzes da Broadway. Na marquise feéricamente iluminada de South Pacific, os nomes de Rodgers e Hammerstein piscam, se refletindo no asfalto molhado. Do teatro lotado chegam os primeiros acordes do tema de abertura, quase abafados pelo som de aplausos.
Um vento gelado sobe pela avenida, anunciando a chegada da primeira neve do inverno.


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