Foi no ano de 1912 que a escritora norte-americana Eleanor Hodman Porter ganhou fama mundial.
Sua criação, a menina Polyanna, popularizou o jogo do contente que, em síntese, sugere que quem ganha limões deve fazer limonada.
Polyanna queria ganhar uma boneca e recebeu um par de muletas. Ficou contente por não precisar delas.
Não vou sugerir a ninguém que passe a vida jogando o contente, pois cada caso é um caso, e jogar o contente pode castrar uma “virada” naquilo que é possível “virar”.
Convém lembrar que um fato pode originar um ou mais fatos contrários e até culminar em grandes tragédias.
Em 7 de dezembro de 1941, a Marinha Imperial Japonesa, de surpresa, comandou um ataque aeronaval à base norte-americana de Pearl Harbor, na ilha de Oahu, Havaí. Essa ação marcou a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra do Pacífico.
Quase quatro anos depois, em 15 de agosto de 1945, com os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, precedidos por bombardeios em 67 outras cidades japonesas, o Império do Japão sucumbiu à necessidade de uma rendição incondicional.
Mais que o jogo do contente, o jogo existencial é feito de escolhas e de ações. Aceitar tanto pode ser um ato de prudência como de submissão.
Felizes os insubmissos que identificam a hora certa, como fizeram Dom Pedro, a Imperatriz Leopoldina e José Bonifácio de Andrada e Silva. Mais que os mártires, são os eleitos da nossa Independência.
Algumas vezes eu “virei” a minha vida, em outras as circunstâncias, como um golpe de Estado, “viraram” a minha vida.
Se eu fosse pensar que a vida é dinheiro, posso dizer que a Ditadura me obrigou a ganhar dinheiro como publicitário, coisa problemática no teatro ou na Imprensa.
Meu amigo Jesuíno, dos quadros do PC, agrônomo e professor da Faculdade de Passo Fundo, cassado em 1964, foi obrigado a doar sua mais-valia à empresa privada. Um ano depois, na praia de Ipanema, ele me confessava:
– Mario, mais um golpe de direita e eu fico milionário.
No golpe, a lembrança de Mario Quintana:
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram
Foram levando qualquer coisa minha…
Dois anos antes do golpe de 1964, Paulo Vanzolini já tinha me dado a receita de guerreiro:
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
Aprendi o preço de viver.
Sou atento à minha existência.
Vida consolidada, virei patriarca de uma família que se ama, que se festeja e é solidária.
Tenho todas as razões para agradecer os amores que perdi e os que se perderam em mim, pois ganhei e perdi mais amores.
É tão insignificante o nosso tempo face à eternidade que o meu jogo do contente é incendiar a vida com o fogo da paixão.
Inté.
Vitrine (comentários sobre a crônica anterior)
Mestre Mário. Seu raro talento de contar grandes histórias em poucas linhas novamente me encantou. Em relação a Paquetá, que nunca visitei, uma pena, lembro da novela da Globo, com uma angelical Nivea Maria. Havia um personagem em particular, creio que era o professor dos rapazes, cujo nome não lembro, mas que era magistralmente intepretado por um ator, cujo nome também não lembro. Para completar o quadro amnésico, adorava o tema musical deste personagem na novela, que também não lembro agora. Alguma luz?
Abração!
Carlos (Eduardo Freitas da Cunha), Florianópolis.
Respondi que a telenovela A Moreninha foi dirigida por Herval Rossano e dei para ele a dica para achar tudo que ele não se lembrava num vídeo que está no Google.
De São Paulo, Antonio Abujamra, o querido Abu, despejou um saco de confetes no meu ego:
Lindo como toujours…

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