Colunas

Uma pauta que me ensinou tanto sobre olhar a vida

Por Márcia Martins

Não me recordo o ano. Mas certamente foi entre o início de 2005 e a metade de 2007, quando estava na reportagem de geral do jornal Correio do Povo. Lembro que era um domingo e eu estava de plantão no turno da tarde. Ao contrário dos outros jornais em que trabalhei só na Reportagem de Economia (Jornal do Comércio e Zero Hora), lá no Correio o plantão abrangia qualquer editoria. Naquele dia, a queridona Jurema Josefa, da Chefia de Reportagem, me escalou para uma pauta que mexeu muito comigo e me fez enxergar a vida de uma maneira mais humana e menos individual. 

Com aquele seu jeito suave de administrar os jornalistas que estavam sob a sua tutela, mãe Jurema (como ficou conhecida na Redação do Correio), me disse: “jovem, me dê uma força e vá cobrir esta pauta com fotógrafo”. E nós fomos até Alvorada, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, que havia passado por uma enchente avassaladora no sábado. Ao chegar no local (creio que era um ginásio municipal) onde os desabrigados estavam provisoriamente alojados, pedi perdão por todos os momentos em que reclamei de algo que me parecia errado na minha vida diante do cenário à minha frente. 

A tragédia da enchente deixou centenas de famílias sem seus lares, seus pertences, seus móveis, suas memórias de vida que escoavam com a água de uma chuva que não cessava de cair. Naquele ginásio, as famílias abastecidas de solidariedade buscavam forças para recomeçar. E, apesar da crueldade da situação, esbanjavam uma esperança que brotava nos olhos dos homens, mulheres e crianças de que seria possível desenhar outra realidade. 

Amontoados em colchões cedidos. Agasalhados por cobertores coloridos e surrados. Agrupados em cantos separados por lonas ou plásticos. Criativos na arte de preparar comida para alimentar seus rebentos. Uma visão que deixou meus olhos marejados de lágrimas. Enquanto seus avós, pais e mães se empenhavam em organizar o novo estágio de vida, as crianças corriam pelo meio do ginásio improvisando brincadeiras. Imediatamente, pensei na minha filha, naquela época com 11 ou 12 anos, e as enormes possibilidades de lazer que tinha para usufruir. Mais uma vez, a vontade de chorar. 

Uma menina aparentando não mais do que 8 anos se aproximou, talvez curiosa ao ver o fotógrafo em ação, e me perguntou se a trança recém feita pela sua irmã estava bonita porque não tinha um espelho para apreciar. Tirei da bolsa um pequeno espelho que levava para retocar o batom e entreguei nas mãos da pequena. Ela saiu pulando e saltitando de alegria anunciando: “a tia me deu um espelho, aquela tia ali me deu de presente”. 

Aprendi tanto naquele plantão sobre solidariedade, humanidade, superação e, principalmente, em persistir e não se entregar. A tirar de cada embrulho que a vida coloca à nossa frente uma lição para tentar ser melhor e acreditar que nada, absolutamente nada é em vão. 

Esta história vivida lá naquele plantão me inundou a lembrança ao ver matérias na televisão sobre o temporal que atingiu a cidade de Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. E que já registrou 195 mortos e 69 desaparecidos. Pensei muito nos colegas cobrindo esta tragédia e emoções contidasnas . Tive certeza que, mesmo aposentada, a profissão de jornalista foi a escolha certa e sempre estará entranhada em mim. Não sei se agradeci, na ocasião, a mãe Jurema pela oportunidade. Certas pautas mudam para sempre o modo de olhar os novos dias.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.