
“O passado é um estranho país.
Lá, as coisas são muito diferentes”.
L.P. Hartley.
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Para nós, crianças de bairro, naquela Porto Alegre dos anos 40, o Paraíso não ficava fora do alcance. Estava logo ali, depois de uma viagem nos bondes da Carris. O paraíso se chamava Rua da Praia. Eu olhava, intrigado e curioso as fotos de minha mãe, de chapéu, luvas e de braços com uma amiga, em um passeio de domingo, na Rua da Praia. E o pai explicava:
” – É o footing, meu filho. Quando cresceres, vais entender”.
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Um dia, a hora chegou. Com amigos do quarteirão, embarquei em um bonde Independência, em direção ao centro da cidade. Naquela Porto Alegre provinciana, tranquila e quase pastoral, os vagões de ferro da Carris eram um sinal da modernidade que chegava. Para nós, ingênuos e sonhadores, eram como carruagens encantadas, capazes de nos transportar de um bairro onde nada acontecia a um mundo de sonhos – a mágica Rua da Praia.
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A navegação, pela Avenida Independência seguia alegre, com risos e tolas brincadeiras, na descoberta dos coloridos cartazes de xaropes, poções e elixires, que prometiam curar todos os males do mundo – reumatismo, calvície, prisão de ventre, enxaquecas, bronquites e rouquidões.
Ainda não sabíamos, mas algumas daquelas marcas estavam destinadas a ficar para sempre em nossa memória afetiva: Biotônico Fontoura, Emulsão de Scott, Phimatosan, Rhum Creosotado, Pílulas de Vida do Doutor Ross, Sal de Frutas Eno. Sem falar de nossos estranhamentos diante do misterioso Saúde da Mulher número Um (Excesso) e número Dois (Escassez). Nenhum de nós tinha a menor idéia do que era aquilo.
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As aventuras nos trilhos da Carris eram ainda mais divertidas aos domingos, quando os bondes Prado passavam lotados em direção ao bairro. Estavam ocupados por alegres senhores de chapéu Ramenzoni, terno e gravata, levando grandes binóculos dependurados no pescoço. Estavam rumo ao Hipódromo Moinhos de Vento para as apreciadas corridas de cavalos do Prado. Aos domingos, a Carris usava um bonde mais curto, apelidado de gaiola. Era um carro mais rápido, que sacolejava o tempo todo, rangindo suas rodas de aço na curva da rua Mostardeiro.
Mas que não afetava em nada a animação dos turfistas, que saltavam do bonde ainda em movimento. Se apressavam para chegar aos guichês de apostas, antes de soar a sirene que anunciava o primeiro páreo.
Lá pelas cinco horas da tarde, após o último páreo, os gaiolas aguardavam seus passageiros enfilerados na avenida. Então acontecia o inevitável – os ganhadores subiam rápidos nos bondes, enquanto os perdedores seguiam impávidos pelas calçadas da avenida, sem dinheiro para a passagem de volta.
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O domingo sempre terminava com o footing na Rua da Praia, com os rapazes postados no meio-fio das calçadas, para admirar a passagem das moças que, de braços dados, fingiam não ouvir os inocentes galanteios – e às vezes, um ousado e nada discreto fiu-fiu.
Quase ao mesmo tempo, os ganhadores do dia estavam a caminho para as demoradas rodas de conversa no Largo dos Medeiros. E depois encerravam o dia com um chá com torradas ou um Fernet Branca ali mesmo, no Café Central.
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