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Uma turma mal comportada

    Replicando Charles Schulz, o pai de Charlie Brown e Snoopy, o argentino Joaquin Salvador Lavado (Quino), quando criou Mafalda e sua turma, …

 

 

Replicando Charles Schulz, o pai de Charlie Brown e Snoopy, o argentino Joaquin Salvador Lavado (Quino), quando criou Mafalda e sua turma, empregou figuras infantis aparentemente inocentes e tolas, que passam o tempo propondo questões politicamente incorretas, ou fazendo perguntas socialmente inoportunas. E como as crianças não perdoam nada nem ninguém, as inconveniências se sucederam: guerras, inflação, burocracia, políticos, militares, burgueses acomodados, operários mal-humorados, tudo e todos. O cartunista se apresenta como um recluso, que fala pouco e raramente concede entrevistas. No entanto, suas pequenas criaturas não mostram timidez em fustigar os hábitos e habitantes da cidade, do país e do planeta. São meninos e meninas que não crescem fisicamente, mas que pensam e discursam como adultos altamente politizados, disfarçados alter-egos do tímido e pacato cartunista.

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Mafalda – Quando Quino começou a desenhar as tiras, em 1964, ela tinha seis anos e estava ingressando no jardim de infância. No início, apenas contracenava com seu “papá” e su “mamá”. Mafalda ama os Beatles, detesta sopa e seu sonho é estudar idiomas para ser intérprete na ONU e contribuir com a causa da paz mundial.

Felipe – Menino cheio de imaginação e amigo de Mafalda, junto com Manolito, Susanita, Miguelito, Guille e Libertad. Tem dificuldades em prestar atenção nas tarefas escolares e vive afobado por causa disto. Vê a vida de forma menos radical do que Mafalda. Gosta dos Beatles, das tiras do Zorro, sabe jogar xadrez e é ligado em Muriel, que não repara que ele olha tanto para ela. Mora no 5º andar do mesmo prédio de Mafalda e sua família. Quino diz que se inspirou em um amigo de infância, que tinha “dois graciosos dentes de coelho”.

Manolito – Grande figura, o Manolito (Manuel Goreiro). Filho de um comerciante do bairro, o dono do armazém Don Manolo. Mais do que uma caricatura do imigrante, Manolito representa os princípios da livre iniciativa e as idéias conservadoras. É evidente a ironia de Quino ao mostrá-lo caracterizado como um galego, sempre sujeito aos comentários sobre sua ignorância e ingenuidade. Um personagem simples, mas que tem sempre os pés na terra, sem muita imaginação, a não ser quando sonha com o dinheiro que ganhará quando crescer. Usa o cabelo curto e tem a cabeça chata, igual ao seu pai e ao irmão mais velho, que aparece muito pouco.  Quando toma conta do mercadinho do pai, aumenta os preços a cada novo índice de inflação. Ao contrário de Mafalda e seus amigos, detesta os Beatles, mas gosta de sopa. Seu grande sonho é ser dono de uma cadeia de supermercados (“Manolo’s”) e fazer uma fusão com o grupo Rockefeller.

Susanita – No álbum Viva Mafalda aparece como Susana Beatriz, e nas tiras avulsas, como Susana Clotilde. É a grande amiga de Mafalda, e eram as únicas meninas do grupo até a chegada de Libertad. Sua aspiração é ser mãe e criar muitos filhos, contrastando com a atitude de Mafalda, mais intelectual, que defende a liberação feminina e a igualdade entre os sexos. Susanita fala pelos cotovelos, ao ponto de infernizar os demais. Nada que passa na vizinhança acontece sem que ela tome conhecimento. Fisicamente, Susanita é ruiva e usa bucles (“tirabuzones”), o que lhe dá um ar de matrona, igual à mãe. Diz que o futuro perfeito do verbo amar é “ter filhinhos”. Racista, não gosta dos pobres e admira as oligarquias. Fica doente apenas em enxergar “el bruto” Manolito. Seu passatempo é implicar com ele a qualquer pretexto, mas se interessa por Felipe (que não toma conhecimento dela). Susanita é rancorosa e egoísta, mas preza a amizade com Mafalda.

Miguelito – Miguelito é outro amigo de Mafalda, o menor e mais inocente da turma, mas também o mais egocêntrico. Está sempre sonhando e tem rompantes filosóficos, fazendo perguntas a Mafalda sobre qualquer assunto imaginário. Usa suspensórios e seu cabelo se parece com folhas de alface. Tem personalidade complexa e elaborada, ao contrário de Felipe, Susanita e Manolito. Filho único, sempre discute com sua mãe, é um tanto egoista e – graças à influência do avô – fervoroso defensor de Benito Mussolini. Estas características o fazem ser direto e sincero, às vezes parecendo cruel com os outros. Mas aceita com humildade as críticas dos amigos. Seu nome completo é Miguel Pitti e apareceu pela primeira vez em uma tira de 1964.

Mamá – Típica dona de casa argentina de classe media dos anos 60. Seu nome Raquel aparece raramente. Vive preocupada com a histeria que acontece dentro de casa. Cozinha, lava, passa, faz compras e não sabe dirigir. Fez universidade e abandonou os sonhos de ser pianista para se casar. Entender Mafalda é sua tarefa mais complicada e penosa.

Papá – Seu nome é Angel. Empregado em uma empresa de seguros, seu hobby são plantas de interior. Vive perplexo com as perguntas de Mafalda e sua grande preocupação são as formigas que infestam o pequeno apartamento onde moram. Dirige um modesto Citroën 2 CV.

Guille – O irmão menor de Mafalda é o único personagem que cresceu com o tempo. Apesar de sua inocência, admira Brigitte Bardot e uma vez xingou uma nuvem que tapou o sol, na praia. Usa linguagem infantil (em uma tira Mafalda tenta que diga “tartaruga” e não “tataluga”), mas é irreverente e chama os pais de “os velhos”. Tem ódio a mortadela, mas gosta de sopa, o que deixa a irmã inconformada. Usava chupeta até recentemente e não há registro de seu nascimento, que ocorreu durante o golpe militar de 1966, quando o jornal “El Mundo”, que publicava as tiras de Mafalda, fechou as portas.

Libertad – Chamada de “chiquitita”, por seu tamanho. Do grupo é a mais liberal, em contraste com os conservadores Manolito e Susanita. Tem esperanças de que o povo tenha consciencia da situação política e promova uma revolução social para mudar as estruturas do país. Sua mãe é tradutora de francês e seu pai, um socialista que trabalha em um “puestucho de morondanga”, que Quino não explica do que se trata. Libertad sonha em ser tradutora de francês como a mãe. Conversa com Mafalda sobre política e temas sociais, mas as duas nunca estão de acordo sobre ideologias.

Tia Paca – É a tia-avó de Mafalda e tia de Raquel (mãe de Mafalda) e tem por hábito saudar Mafalda com muitos beijos, o que a desagrada muito.

Mamá de Miguelito – Aparece raramente. É obsessiva com limpeza e sempre que Miguelito chega em casa, é obrigado a colocar os chinelos para não marcar o piso.

Mamá de Felipe – Em uma primeira aparição, trabalhava em sua máquina de costura. Mais tarde, ganha os dentes de coelho de Felipe quando reclama com Mafalda que o filho está de cama, deprimido pelo reinício das aulas.

Burocracia – A tartaruga mascote de Mafalda e de seu irmão Guille, assim apelidada por sua lentidão. Como Mafalda, odeia a sopa, da qual sempre foge, se movimentando com rapidez inusitada.

Papá e Mamá de Susanita – Ele trabalha como vendedor de enlatados. Ela se parece com Susanita, mais gorda e tranquila.

Don Manolo (Papá de Manolito) – Imigrante andaluz, nasceu na Espanha e veio para a Argentina. Tem aspecto tosco – mal barbeado, óculos remendados com esparadrapo. Dono do “Almacén Don Manolo”, nunca teve férias e quando Manolito sugere que tire uns dias na praia, quase sofre um infarto. Aparece pela primeira vez em 1965, quando o pai de Mafalda segue um trilho de formigas até o seu botequim.

Mamá de Manolito – Como el papá de Manolito, nasceu na Espanha, mas nunca se vê seu rosto, mesmo quando ameaça Manolito com umas chineladas, para que não se atrase para a escola.

Madre de Libertad – Uma mulher elegante e alta, de cabelo liso, bem diferente da filha. Tradutora de livros em francês, especialmente de existencialistas como Sartre. Não quer que Libertad seja tradutora, porque diz que significaria “morrer de fome”. Fuma, apesar das restrições e do desgosto da filha. Vive em minúsculo apartamento, mas fala com Libertad em voz alta, para dar a impressão de que moram em um lugar maior.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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