“ Se algum dia você for para o céu,
com certeza encontrará alfajores por lá. “
(Neville Reid, crítico de gastronomia)
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Partindo da Plaza San Martin, sigo as pegadas de Jorge Luis Borges, repetindo uma de suas caminhadas favoritas, até a Basílica del Pilar e o Cemitério de La Recoleta (onde ele pretendia ser sepultado). Dali, alcanço a Avenida Pueyrredón e procuro a Calle Francisco de Vittoria. É nesta rua meio escondida que fica o ‘Florencio’, um bistrot cujas patisseries e doces folhados são elogiados pelos colunistas de gastronomia. Na chegada, uma placa da porta recebe os clientes com esta promissora saudação:
“Que disfrutes de una tarde encantadora!“
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Segundo se comenta, neste pequeno bistrot, eventualmente, pode-se saborear uma guloseima que se tornou mítica em Buenos Aires: um certo alfajor de Quilmes, tão difícil de encontrar que muitos portenhos acham que ele não existe.
No entanto, o crítico de restaurantes do El Clarín garante que o Capitán del Espacio é o melhor alfajor que já provou na vida. E o homem é conhecido por descobrir tesouros culinários nos bodegóns e restaurantes de Buenos Aires.
É bem conhecida a obsessão dos portenhos por asados, vinos e pastas. Eles também não dispensam seu café con leche matutino, seguido de algumas doses de cafeína durante o dia. Um rito diário que não dispensa o acompanhamento de uma boa pâtisserie, sejam medias lunas, ou a guloseima trazida pelos colonizadores espanhóis – o alfajor.
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Este doce surgiu no século 8, na Andalucia, por obra e arte dos confeiteiros mouros. Aparece em crônicas antigas, com o nome de Al-hasú, presente nos banquetes de ricos e poderosos. Mil anos depois, o alfajor chega à Argentina e vira paixão nacional.
Atualmente, as multinacionais Kraft, Cadbury e Suchard dominam o mercado, que consome nove milhões de unidades diárias. Mesmo assim, pequenas alfajoreras ainda disputam presença nas confeitarias e bistrots, com alfajores artesanais, seguindo receitas tradicionais. Mas, como na Argentina não existe unanimidade, as discussões sobre qual o melhor alfajor são intermináveis. Existem dezenas de variações, desde o tradicional, de maizena com recheio de dulce de leche até os banhados em chocolate ou recheados com geléias de frutas da Patagônia.
Então, acontece o paradoxo – o alfajor mais endeusado não se encontra facilmente em Buenos Aires. Não existe nas prateleiras dos supermercados nem nas confeitarias do centro da cidade. A procura é tal que alguns cafés exibem um cartaz à porta:
“No insista! No hay Capitán del Espacio!”
Mas é difícil entender a ausência de um produto tão procurado. O “Capitán del Espacio” mantém a mesma embalagem desde que foi lançado, há mais de 40 anos. A empresa de Quilmes que o fabrica, ignora o marketing moderno, não investe em publicidade, não tem assessoria de imprensa nem atende aos pedidos de entrevistas. Uma elementar regra de mercado ensina que quando a procura é maior do que a oferta, o preço sobe. Não para o “Capitán del Espacio”, cujos preços no varejo são 60% menores do que os concorrentes.
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Mais guloso do que curioso, examino o balcão de pâtisseries do Florencio, onde estão expostos pommes tatin, madelaines, éclairs du chocolat, babas au rhum, medias-lunas, macarons e uma variedade de alfajores de maizena e chocolate, cobertos de açúcar de confeiteiro. Mas, nem sinal do misterioso alfajor que os amigos tanto me recomendaram. Uma senhora de impecável avental branco me observa, divertida. Aponta a vitrina:
“¿Cuál es tu dulce favorito?”
Respondo que são os alfajores, mas que procuro o Capitán del Espacio. Ela faz um ar que deveria ser de enfado e indaga qual o número de meu pedido. Quando digo que não fiz encomenda, pois estou de passagem, etc., ela lamenta, avisando que a casa só serve o Capitán del Espacio mediante pedido antecipado.
Me contento com um té de manzanilla, acompanhado de um delicioso – mas comum – alfajor de chocolate recheado com dulce de leche. Em uma placa na parede, os versos de Martin Fierro se divertem com meu pequeno drama:
“Con el corazón en Dios,
Y en el santo escapulario,
Y el alfajor en la mano.”


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