19 de maio de 2021 ficará registrado com uma estrelinha de destaque. Era uma quarta-feira, e depois de 16 meses encastelados em casa, amedrontados que ficamos durante mais de um ano por causa desta mal-vinda pandemia, Eliete e eu caímos na estrada. Duplamente vacinados, sentimo-nos enfim aliviados para poder circular e conviver com outros seres, mesmo, claro, mantendo os cuidados que as otoridades recomendam.
No dia 14 de março do ano passado, quando as primeiras notícias sobre a recém declarada pandemia chegavam, me deu um cutuco: se vamos ter de ficar uns 30 ou 40 dias quietos, sem sair de casa, seria bom anotar o que aconteceria com a gente saindo de uma rotina, aquela em que se convive com amigos, frequenta-se cinema e restaurante, as viagens estão no horizonte próximo, e coisas do gênero – saindo de uma rotina para um novo e desconhecido padrão.
Comecei estas linhas chamando-as de Rotinas da Crise. Como todo ser humano que vive no planeta Terra, imaginava que o tal novo coronavírus ficaria entre nós algo entre 30 a 60 dias, findos os quais voltaríamos à “vida normal”. Um engano mundial, como se viu, e uns cem dias depois decidi alterar o nome para ‘Diário – O ano em que vivemos medrosamente’, convicto de que na pior das hipóteses a pandemia se encerraria até o final de 2020, com o retorno enfim à ansiada normalidade. Qual o quê! A pandemia completou um ano em 11 de março, não há sinais de arrefecimento e, pior, ao completar este ‘primeiro aniversário’ o Brasil apresentava um dos piores desempenhos no processo de vacinação.
Aquele longínquo 14 de março de 2020 identifiquei como Dia Um. Prometia ser mais um sábado tranquilo, quando recebi um telefonema de meu filho Rodrigo, há mais de 20 anos residindo em São Paulo. Três dias antes a OMS havia declarado a pandemia causada pelo coronavírus, e Rodrigo relatou ter conversado com dois amigos, um residente em Boston e outro no interior da Itália. Ambos descreveram um quadro de pânico e de corrida a farmácias e supermercados e tanto um quanto outro alertou que isso seria a antessala do que ocorreria no Brasil. “Pai, sem pânico nem nada do gênero, vá o mais breve possível a um supermercado e faça um bom estoque porque a partir da semana que vem vocês não poderão sair de casa”, Rodrigo falou. “O clima no Brasil ficará semelhante ao dos relatos que ouvi, as pessoas vão ficar amedrontadas e vão correr às lojas para estocar mercadorias.”
Nos dias que se seguiriam nossas vidas mudaram do dia para a noite. Começou uma nova rotina. Ficar em casa, ler mais, ver séries e filmes, arrumar coisas nas gavetas, todos estes itens passaram a ser rotineiros, uma situação inconcebível até poucos dias antes. Cancelamos a vinda semanal da diarista, com um ônus na limpeza que Eliete se prontificou a abraçar, sem pensar duas vezes. O governo, via seu ministro Mandetta, enfatizou a necessidade de todos ficarem em casa, evitando qualquer tipo de aglomeração para não ter contato com outras pessoas. Cinemas, shoppings, academias, lojas, restaurantes, templos e todo tipo de local que atraia público foram obrigados a fechar. Tínhamos ingressos comprados para um show de cover de Elis Regina, cancelado como tudo o mais.
No dia 17 morreu de Covid o primeiro brasileiro, e três dias depois estados decretaram situação de calamidade pública. Imperava um sentimento de medo no país, e as notícias do exterior não eram nada animadoras. Na Itália, os relatos indicavam pessoas morrendo sem receber a extrema-unção nem funeral.
Pois neste maio de 2021, graças à Coronavac, um outro horizonte se abriu e caímos na estrada para uma jornada que, fosse em tempos ditos normais, dificilmente eu, septuagenário, faria: ir de Florianópolis a São Paulo de carro, o que felizmente acabou sendo uma decisão acertada. Teve escala em São Francisco do Sul, linda cidadezinha em uma ilha perto da fronteira com o Paraná, e outra em Curitiba, com dois dias dedicados a conhecer melhor – e sem preocupações, como bons turistas – a cidade que Jaime Lerner tanto amou e embelezou, com sua Rua das Flores, a Boca Maldita, o Jardim Botânico, a Ópera de Arame.
Com a “nova” rotina, que inclui o uso de máscaras, álcool em gel e um distanciamento social cauteloso, a vida é outra. Convive-se enfim sem culpa com netos e filhos, ir a consultório já não causa tanto pavor, até a cadeira do dentista se torna amigável.
O que se pode dizer agora? Que viva a vacina!


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