Colunas

Valeu, Rei

Por José Antonio Vieira da Cunha

Primeiramente, obrigado, Pelé. Muito obrigado, Pelé. Obrigado mesmo, Pelé.

Não houve nenhum outro como este ídolo, este verdadeiro superatleta, um cara sobre-humano, e o futuro talvez não nos apresente nenhum outro capaz de exibir tanto talento, tanto brilho, tanta delicadeza. 

Quando completou 80 anos, recluso em plena pandemia, foi alvejado por muitas homenagens e referências na mídia. Foi quando relembrei que também tive belos momentos de alegria por ver Pelé treinar e jogar – ao vivo! Em dezembro de 1964, alheia ao golpe militar, nossa turma de garotos que encerrava o ginásio fez uma excursão ao Rio de Janeiro, com escala inevitável em São Paulo, como forma de festejar a formatura e saudar a nova era que se iniciaria, com as responsabilidades que começam a se apresentar a quem navega com o frescor dos 15 aninhos.

Foi uma longa viagem de ônibus, como não poderia deixar de ser naqueles tempos medievais, e parte de seu custo, no caso, o fretamento do ônibus, foi feita pelo grande Xafi Nazar, um rico fazendeiro pai do Xafizinho, um dos melhores amigos na turma. O restante do recurso veio sabe de onde? Da caixinha que arrecadamos ao longo do ano com o lucro da cantina da escola, que administrávamos com a supervisão experiente do irmão Rovílio, o professor marista que nos orientava.

A excitação e a sorte nos acompanharam o tempo todo naquela aventura. Excitação porque tudo era uma grande novidade para os guris de 14, 15 anos, que deixavam Cachoeira, média cidade do interior gaúcho, para conhecer o mundo. Sorte, digo hoje, porque não houve nenhum perrengue e ainda fomos brindados com dois espetáculos e um aperitivo do melhor futebol que se praticava no Brasil.

Quando estávamos em São Paulo, 16 de dezembro, houve a primeira final da chamada Taça Brasil, o Brasileirão da época. Fomos ao então imponente Pacaembu ver o Santos enfrentar o Flamengo, daí o primeiro e inesquecível sopro da senhora sorte. Só tínhamos olhos para o Santos com Gilmar no gol e aquele ataque imbatível formado por Coutinho, Pelé e Pepe. Jogão de bola, os santistas tocaram 4 a 1, com três do Rei. Antes da final, e a caminho do Rio, visitamos Santos, inevitavelmente fomos conhecer a já famosa Vila Belmiro e lá a boa sorte nos acenou novamente. Entrar no estádio e acompanhar treinos era absolutamente normal naqueles tempos, e, sentados na precária arquibancada, vimos maravilhados, no centro do gramado, trocando bolas e brincando, Mengálvio, Coutinho, Pepe e Ele. 

Logo depois, 19 de dezembro, lá fomos ao Maracanã participar do jogo final. Foi fácil demais comprar ingressos. Depois daquela goleada os cariocas desacreditaram do Mengo e pouco mais de 50 mil torcedores, um bom público mas insuficiente para lotar o grande templo do futebol, acompanharam um medíocre 0 x 0, suficiente para o Santos festejar o tetracampeonato do campeonato nacional.

Pelé espantou do Brasil o complexo de vira-lata, na caracterização genial de outro imortal, Nelson Rodrigues, que mais de uma vez elegeu o craque como seu personagem da semana, enchendo-o de elogios com seu texto sempre espetacular. Nelson soube expressar como ninguém o que significava Pelé para o país, e no final de 1959 o elegeu Personagem do Ano e sentenciou: “É um menino, um garoto. Se quisesse entrar em filme de Brigitte Bardot, seria barrado. Mas, reparem: é um gênio indubitável! Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: Como vai, colega?’”.

É como disse o americano Andy Warhol, o mestre da pop art, ao abrir uma exceção sobre sua máxima de que todo mundo teria 15 minutos de fama em algum momento: “Pelé é um dos poucos craques que contrariam minha tese. Em vez de quinze minutos de fama, terá quinze séculos”.

Amém.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.