Nunca me preocupou muito a ideia de envelhecer. Sempre vi a possibilidade de chegar nesta fase como um caminho natural da vida. E feliz de quem consegue viver a velhice, que como outras etapas do desenvolvimento humano, apresenta vantagens e desvantagens. Basta equilibrá-las. Jamais pensei que ao passar dos 60 anos seria um fardo para a sociedade, um peso para os familiares ou merecedora de termos pejorativos e discriminatórios para me enquadrar em algum critério de ser não produtivo. Sou velha sim. Mas quero seguir meus dias com dignidade e mantendo a rebeldia que sempre me acompanhou.
E a velhice já me traz algumas limitações, o que é natural. Algumas dores, e faz parte. Uns movimentos corporais mais difíceis. Umas rugas mais pronunciadas no rosto. Que nunca pensei em disfarçar com procedimentos estéticos porque representam marcas do que já vivi. E fios de cabelos brancos. Esses sim eu ainda escondo com pinturas periódicas Não por medo de indicar a idade e sim por vaidade mesmo. E quem disse que velha não tem vaidade? De resto, procuro cuidar da saúde física e mental com as mais diversas atividades. Nada de acomodação.
Por isso, fiquei empolgada quando a amiga que fiz lá na faculdade, a Ana Lúcia Pompermayer, me convidou para o lançamento do Mover (Movimento da Velharada Rebelde), no dia 18 de junho, que teve a leitura do seu manifesto no último domingo, na Redenção. O Mover é uma construção coletiva da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice), das Mulheres Inquietas e do LerAlice. A ideia é desconstruir o etarismo, lutar pelos direitos dos velhos, exigir respeito, viver com dignidade até os últimos dias com qualidade, sem abdicar da rebeldia.
Aliás, como enfatizou a querida jornalista Rosina Duarte, uma das responsáveis pela Alice, “nasceu o Mover, que como todos os seres, vem ao mundo esperneando e gritando”. E como diz o manifesto lido na Redenção: “Somos velhas e velhos. Estas palavras não nos assustam. Podem nos chamar assim, sem agressividade ou formas pejorativas. Somos as velhas e os velhos do século 21, integrantes de uma geração que sonhou em mudar o mundo e que revolucionou os costumes. Fomos jovens rebeldes e não abrimos mão de nossa rebeldia. Porque, acreditem ou não, a velhice é um privilégio”.
E foi muito lindo o que se viu no domingo durante a leitura do manifesto do Mover numa manhã fria, mas aquecida pela presença de homens e mulheres que não aceitam papéis estereotipados para definir sua importância na sociedade. Porque como ressalta o manifesto (disponível nas redes sociais da Alice), “não somos inúteis, não somos fardos, não somos descartáveis e merecemos um lugar neste mapa de diversidade que é o nosso mundo”.


2 Comments
Márcia, velha amiga e velha rebelde: tua participação muito nos honra! Afinal, aqui estamos e somos privilegiadas por chegarmos tão longe, repletas de talentos e de histórias pra contar!
Querida Marcia, não vou agradecer em nome do Mover porque já te considero parte dele. Mas registro aqui a alegria de ter a tua presença entre nós, velhas e velhos rebeldes. Viva a velharada alternativa e todas as pessoas que, como tu, não se rendem e não se vendem.
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