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Vestígios e Fragmentos

“Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada (…)”.

Mario Quintana.

***

O poeta Fernando Pessoa, já adoentado e pressentindo o fim de sua jornada, se inquietava:

” – Não sei o que o amanhã me trará”.

Mesmo consciente da imensa obra que deixava aos portugueses, duvidava – e com bastante razão – do reconhecimento que seu legado receberia por parte das novas gerações. E ele não foi o único a temer pela ameaça do esquecimento que se seguiria. O argentino Ricardo Güriraldes, autor do clássico “Don Segundo Sombra”, já dizia em vida que as pegadas do escritor estão destinadas a serem apagadas pelo primeiro vento. 

***

Os depoimentos daqueles que souberam como extrair poesia do cotidiano nos levam a refletir que há um tempo de repensar no que deixamos pelo caminho. São medos, segredos, pecados, pecadilhos e epifanias que há muito esquecemos. Um tesouro incalculável de emoções que guardamos no vácuo que existe entre o que queríamos ser – e o que a vida fez de nós. A cidade ao redor mudou, os velhos amigos não estão mais por aqui, mas ainda consigo reviver os passos dados e reanimar as venturas recebidas:

O olhar furtivo da minha primeira namorada.

A lata de goiabada que ganhei na Festa do Divino.

O cheiro do cavalo do meu primeiro galope.

            A voz da mãe recitando quadrinhas na hora de dormir. 

O som distante de um piano na noite mal-dormida.

Prosseguimos buscando a coragem de nossos pais e a doçura dos nossos avós, mas o que encontramos são receios e interrogações. Mas é quando, dos altos morros chegam melodias antigas, que anunciam felicidades que estão por chegar.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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