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Viagem aos queijos de meu pai

Parece que foi ontem. Lembro bem daqueles sábados, quando o pai chegava em casa, pleno de sorrisos. Trazia duas garrafas de vinho do Reno, …

Parece que foi ontem. Lembro bem daqueles sábados, quando o pai chegava em casa, pleno de sorrisos. Trazia duas garrafas de vinho do Reno, uma caixa de passas de pêssego de Pelotas e, em um embrulho em papel manteiga, alguns de seus queijos alemães favoritos. Que a mãe chamava de “queijos fedidos” e pedia para ficarem longe de sua cozinha.

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Passaram-se muitos anos até o meu reencontro com os stinkenkäse de meu pai. Foi por mero acaso, quando uma greve de pilotos da Lufthansa me deixou em uma cidade que sempre quis conhecer: Dresden. Um verdadeiro monumento do barroco alemão, que seus moradores chamam de cidade heróica, que “nem a peste da Idade Média nem o fogo da II Guerra conseguiram abater”.                       

Andar por seus antigos quarteirões é uma experiência encantadora – e foi assim, encantado da vida, que descobri a Leiteria Pfund. Ela funciona no mesmo endereço desde 1884 e já foi considerada “a mais bela fromagerie do mundo”. Em suas prateleiras, mais de uma centena de queijos de origem certificada, das melhores regiões queijeiras da Alemanha. Para os apreciadores de emoções fortes, um verdadeiro paraiso de aromas e sabores. Para o turista acidental, a revelação – “quer dizer que não é preciso ir à França para saborear grandes queijos?”.

Ao mesmo tempo, a dúvida – qual o ritual para degustar tantos queijos? A atendente, de imaculado avental branco e belas bochechas rosadas, sugere começar com os cremosos e suaves antes de tentar os mais robustos e condimentados.

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À nossa frente, em uma tábua de carvalho negro, fatias douradas do Odenwälder Frühstückskäse, indicado para o café da manhã. Consistência macia, suavemente aromático, é feito com ervas e enzimas e maturado por 14 dias. Está acompanhado do Obazda, que dizem ser muito apreciado na Oktoberfest. Se parece com a manteiga, resultado da mistura de Camembert, Quark e Limburger. Logo aparecem os montanheses da região do Allgäu, o Emmentaler e o Allgäuer Bergkäse, com sabores que sugerem vacas pastando em idílicos campos verdes dos Alpes, a mil metros de altitude.

A frau de bochechas rosadas quer saber se estamos prontos para a etapa seguinte. E recomeça a festa, com a coalhada conhecida Como Handkäs mit Musik, ou seja, “queijo moldado a mão com música”. Ele é macerado por vários dias em um molho de cebolas picadas, vinagre, óleo, cominho, sal e pimenta. A tal “música”, segundo os queijeiros, se refere aos ruídos do estômago durante a digestão…

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De Wertach, no sul da Alemanha, vem o Weisslacker, picante, de casca escura e brilhante, que é curado por 12 meses. É conhecido por Bierkäse e devido ao seu alto teor de sal, exige a companhia de uma cerveja dunkel, escura e encorpada. Também do sul da Alemanha, o Weinkäse, maturado em levedura de vinho e especiarias. E, é claro, perfeito ao ser degustado com um bom Reno/Pfalz.

A atendente parece decepcionada quando esboçamos ir embora. Pergunto sobre os stinkenkäse e ela nos aconselha a percorrer a “Estrada dos Queijos”, entre Hamburgo e Flensburg, com mais de 30 queijarias, especializadas em queijos fortes, típicos do norte, como o Steinbuscher, o Tilsiter e o Ziegenrolle, que é um famoso (e fortíssimo) queijo de leite de cabra em formato de rolo.

Como um gesto de despedida, a bochechas rosadas apresenta uma especialidade da casa – o Alter Schwede, um autêntico stinkenkäse, com forte acento de alho, pimenta, cominho e ervas frescas da ilha de Rügen. Ao lado, um belo copo do dourado Riesling Trocken.

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Então, quase que instantâneamente, sou conduzido de regresso aos suaves sábados da infância, quando meus pais festejavam a vida com vinho do Reno, doces de pêssego e “queijos fedidos”.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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