Como seria viver uma crise existencial, hoje? No tempo em que a ditadura existia em nosso país, quando você podia misturar filosofia com posição política, o descrédito no Sistema era a tônica com limão e gelo. A revolta existencial, o ser ou não ser, fazia parte da vivência da maioria dos jovens. A quebra de regras de comportamentos sociais preestabelecidos era uma busca quase obrigatória. Eram os tempos pós-Hair.
Combater o Sistema, hoje, seria mesmo ridículo. Talvez por isso Fu Lana tenha encontrado ex-colegas, na verdade ex-conhecidos e ex-circulantes da mesma universidade, quarenta anos depois, e eles estavam dentro de bem cortados ternos escuros, usando gravatas discretas e os inexoráveis óculos de grau. Muitos ocupavam cargos políticos, da mais alta hierarquia, diga-se de passagem, porém, eles não a reconheceram. Nem podiam. Se, antes, ela vendia fichinhas para orelhão no Diretório Central de Estudantes e eles discutiam política e conjuntura, distribuídos em diversas tendências, ali, naquela segunda noite de reencontro, ela seguia vendendo livros e eles ocupavam os postos mais altos no centro político do país, lugares que nunca foram desejados na adolescência e jamais sonhados por quem apenas acreditava em construir uma sociedade diferente. Não poderiam estar naquela posição apenas em causa própria. Fu Lana jamais desacreditaria de seus heróis, seja em quarenta ou em milhares de anos depois de tê-los conhecido.
Quem sempre teve preocupações com a política e com a sociologia, não poderia acabar muito longe daquilo que sempre defendeu, mesmo que não signifique muito, na mente dos que sempre desejavam mais.
Seria importante colocar o olho em quem se preocupa com política hoje, e que, mesmo contra a maré, possa estar propondo uma sociedade diferente. Não se sabe onde pode estar essa gente daqui a quarenta anos. Seria bom prestar atenção, pois, seguindo o mesmo andar da carruagem, eles certamente estarão no poder. E esses novos políticos serão, como reza a cartilha, tão comportados quanto os seus antecessores, talvez com alguns passos à frente, que é para onde se anda.
Risadas e brindes. Era uma noite de memória. Em Brasília, o momento tinha um gosto de “nós chegamos onde nunca imaginávamos, quem diria” e não bastariam todos os sorrisos para perceber que a lembrança das peripécias juvenis estava muito longe da realidade dos atuais protagonistas do país. Ministros, secretários, ocupando postos A ou B, todos ainda estavam militando pelas mesmas causas inalcançáveis, ainda dificultadas, seja pelas amarras do poder, seja pela falta de recursos, pela falta de idéias ou pela desistência em causa própria. Quem poderia acusar?
Fu Lana conhecia aqueles sorrisos. No entanto, identificava neles apenas a lembrança dos que, em sua época de guria, estampavam a maior força de viver, uma imensa sensação e desejo de solidariedade, tinham cabelos cacheados alcançando os ombros, eram magrinhos e usavam bolsas a tiracolo.
Lembrou especialmente de um cara, que parecia um seminarista quando jovem, que tratava a todos com a mesma igualdade, sempre sorrindo, fosse o interlocutor um porra-loca, um desmiolado ou, na melhor das hipóteses, um estudioso das diferentes formas de coexistência da sociedade civil. O mesmo sorriso estava ali, na sua frente, na figura de um superministro, destituído da moldura de cachos que deu lugar a uma calva disfarçada. Fu Lana não guardava nomes, logo, de nada adiantaria perguntar. Também ela estaria certamente diferente. Para melhor.
Naqueles tempos, batia pino entre tantos conceitos, comportamentos e sensações difusas. Raspara o cabelo e afastara-se dos rapazes. Era uma preocupação a menos. Fazia as vezes de uma pessoa maluca, e ficava ali, no suporte do movimento, fazendo cartazes, e, de vez em quando, na Semana das Artes, ajudando a divulgar as ações tidas como badernas sob ponto de vista da Reitoria.
Em peças de teatro, com textos proibidos, de autores ainda presos, Fu Lana jamais poderia estar no palco, mas certo que estaria na produção. Criava os painéis borrados que faziam as vezes de fundo de cena, manipulava os diversos holofotes improvisados em uma mesa de luz feita de pedaços de lata e fios desencapados, onde levava muitos choques. Ela era assim. Fazia qualquer coisa para estar ao lado daqueles malucos. Obviamente, tinha de passar despercebida. Ali, naquela noite, estava disfarçada de pessoa normal. Agradecia a si mesma pelo fio de memória que ainda restava. E, muito de vez em quando, erguia um chope para brindar ao olhar de algum sorriso rejuvenescido, que insistia em não desistir.

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