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Viajante de si mesmo

“As viagens são os viajantes.

Para viajar basta existir.”

Bernardo Soares.

O poeta português Fernando Pessoa viveu a maior parte de sua existência em Lisboa, cidade onde nasceu e morreu. Viajou muito pouco, África do Sul, Açores e Algarve. No entanto, viagens e viajantes é um tema que percorre toda sua obra, evocando a herança dos grandes navegadores portugueses. Passou toda a sua vida adulta em Lisboa, cidade pela qual se declarava eterno apaixonado.

***

Coube a seu heterônimo Bernardo Soares identificar as viagens que o mais o seduziam:

“Minhas melhores viagens são os livros da Biblioteca Nacional ou das livrarias do

Chiado. Gosto da rotina da cidade, de me perder em seu mundo de ideias,

sem pontos de partida nem de chegada.”

Para o poeta, viajar tinha significados múltiplos, inclusive os encontros e as difíceis despedidas de amigos que viajavam para Paris. Frequentava a estação de trens do Rossio, onde se despedia de amigos e pessoas caras, sem a certeza que as veria novamente. E escreveu:

“Partir! Partir é viver excessivamente. O que é tudo, senão partir?”

Lisboa era seu território familiar, pontuado por lugares preferidos que visitava com frequência. Como a tradicionalíssima Livraria Bertrand, no Chiado e o Cais da Rocha do Conde de Óbidos, de onde ele se despedia de amigos que navegavam para lugares distantes. Percorria também um roteiro pelos antigos cafés do centro, como o Café Martinho da Arcada, na Praça do Comércio e o inevitável A Brasileira, escala obrigatória para os leitores do poeta. Em 1925, Fernando Pessoa escreveu um pequeno guia de Lisboa, com a intenção de mostrar aos visitantes a grandeza e a história da cidade. Afirmava que Lisboa era muito mais do que uma coleção de cartões-postais e que o visitante deveria conhecer sua origem e história, que absorveu as heranças de fenícios, godos, romanos e muçulmanos. O guia lista as praças monumentais, como a Praça de Luís de Camões e o Terreiro do Paço, a mais antiga de Lisboa e uma das maiores da Europa, destruída – e depois reconstruída – no terremoto de 1755: 

“Passo horas no Terreiro do Paço, à beira do Tejo,

meditando em vão. A minha impaciência constantemente

me quer arrancar desse sossego e a minha inércia

constantemente me detém nele”.

 

E assim resume os sentimentos de um viajante de si mesmo:

“Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Sentir tudo de todas as maneiras.

Sentir tudo, excessivamente.”

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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