
“Se hoje é terça-feira, isso é a Bélgica”.
Arthur Frommer, ‘Europa para Todos.’
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A romancista norte-americana Anne Tyler publicou 20 livros e tem um ‘Prêmio Pulitzer’ na prateleira. Alguns de seus romances fizeram a festa das livrarias, como ‘O Turista Acidental’, que vendeu muitos milhares de exemplares. O livro conta a estória de Macon Leary, um metódico e obsessivo escritor de guias de viagens que detesta viajar. Na verdade, trata-se de um ensaio sobre tédio e desesperança. Como se define no primeiro capítulo:
“Quando se viu sozinho, Macon desfez a mala e
pendurou o paletó. Foi até a janela e ficou olhando os telhados.
Parecia estar em outro lugar, distante no tempo e sentia que não fazia parte de nada daquilo (…).”
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O personagem de Anne Tyler viaja por obrigação, ao mesmo tempo que detesta cada detalhe daquilo que faz. No entanto, as descrições e roteiros que produz para seus leitores são sedutores e os motivam a comprar passagens e voar para lugares distantes e exóticos. Cada um de nós já experimentou dividir espaço em aviões, trens ou ônibus ao lado de passageiros pouco ou muito estranhos. A mesma escritora que criou Macon Leary confessa que seu hobby favorito é tentar identificar manias e preferências das pessoas que circulam em grandes aeroportos. E diz saber que, em algum lugar entre a multidão que está embarcando ou desembarcando, existe o Verdadeiro Viajante.
Ele é um personagem quase mítico. Já foi definido por escritores como Marcel Proust e Charles Baudelaire. Para o autor de ‘Em Busca do Tempo Perdido’, o viajante de verdade não anda em busca de novas paisagens ou aldeias diferentes da sua, mas procura ver o mundo com novos olhos. Já seu colega, Charles Baudelaire, o homem que inventou a flânerie, diz que viajar é uma lição de humildade, que demonstra a insignificância do homem diante da natureza e da História.
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Tenho bons amigos que adoram viajar, sair pelo mundo afora, respirando novos ares, experimentando novos sabores. Mas igualmente, tenho amigos que odeiam fazê-lo e preferem ficar em sua bolha. Na verdade, não se pode negar a razão dos que não gostam de aviões, hotéis e aeroportos. O mundo mudou rapidamente e sair de casa está ficando muito caro e cada vez mais difícil. Algumas vezes, ao regressar de viagem, chego à conclusão de que gastei tempo, paciência e (muitos) dólares para continuar no mesmo lugar – estive em aeroportos, restaurantes e lojas semelhantes ou iguais aos que tenho não longe de casa.
A escritora Clarice Lispector escreveu que havia desistido de viajar, pois o mundo estava ficando cada vez mais monótono e parecido. E que preferia ficar em casa, pois conversar e trocar experiências com amigos e queridos era bem mais divertido. Outro escritor, Mario Vargas Llosa disse algo parecido – que o prazer de viajar se esgotou no século XX e nunca mais será o mesmo.
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