Será que o mundo de hoje pode abrigar um existencialista? Aquele cara que questiona as regras da sociedade, a existência, tudo? De tempos em tempos, surge uma turma desses bípedes pensativos que ousam supor que o Homem não faz sentido.
São aqueles homens-eterno-aprendizes que se curvam à natureza, nem se imaginam líderes ou donos, e muito menos dominadores. Se rendem às maravilhas da criação, acreditam no amor entre seres humanos, não pregam a riqueza, nem o poder. São devoradores de livros, se esses ajudarem em seus questionamentos. Se trouxerem experiências únicas, se ensinarem a abandonar fórmulas fáceis e previamente determinadas pela maioria e pelo status quo.
Houve um tempo, para a nossa super-heroína Fu Lana, em que essa viagem fazia sentido: pegar a mochila e encarar nada mais do que um caminho. Ao optar por abandonar-se solitária direto a um cine, sem saber com antecedência qual o horário, nem qual o filme, ela surprendeu a si mesma em uma pequena (bota mínima nisso) experiência independente. Apesar das suas incríveis decisões resumirem-se entre comida tailandesa e mac-duplo, preferiu a oção menos arriscada. Afinal, não curtia um passeio solo há muito tempo e era preciso treinar um pouco mais para radicalizar o processo.
Estava acostumada a andar acompanhada, organizar cada passo, escolher o trajeto, planejar a volta e naquela noite estava vivendo um humilde início.
No filme, Into the wild, um rapazote tentava convencê-la de que o sonho não acabou. No entanto, em lugar dos mochileiros desmiolados de antigamente, restaram estes de hoje, que planificam, elaboram a fuga de casa como a um plano de marketing, preparam a resistência física, alimentam-se adequadamente e quando é preciso, fazem um fundo de reserva para emergências. Usam até relógio. Não combina esse hippie-bom-moço com a caricatura que Fu Lana traz sobre o bando. No entanto, ela deseja um hip, hip, hurra para eles, se, de fato, existirem.
Os ripongas no filme, sonhadores e velhos solitários, querem adotar o guri de qualquer jeito, mas ele é selvagem. É o legítimo filho de Deus e de mais ninguém. Fu Lana torce para que sua própria percepção do mundo esteja equivocada. Sua visão anda embaçada pelo pragmatismo e pela razão. Está passando por uma fase de catarata espiritual. Não percebe o valor que pode ter uma aventura e prefere o encapsulamento a uma vida ao estilo Jack Kerouac.
Na saída, poderia curtir a noite e as estrelas, ao pé de uma fogueira, mas preferiu voltar correndo para casa, com medo dos pobres pedintes das sinaleiras. Não deu nem boa noite aos porteiros do shopping e retornou às pressas como um animal doméstico, ao seguro local onde dorme todas as noites.
Ainda bem que existe o andar da carruagem. Ainda ótimo que existam caminhos e caminhantes. Em todas as épocas. E que exista o cinema para a gente recuperar as sensações perdidas e retomar os batimentos cardíacos.

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