Colunas

Você já disse eu te amo hoje?

Não é papo de auto-ajuda. Longe de parecer uma sessão “ai, meu botox, envelheci e fiquei saudosa”. Nem versão natalina de “sai deste corpo …

Não é papo de auto-ajuda. Longe de parecer uma sessão “ai, meu botox, envelheci e fiquei saudosa”. Nem versão natalina de “sai deste corpo que ele não te pertence”, e vou escrever minha listinha para o Papai Noel. Muito menos uma adiantada lista dos meus pecados mortais ou não em 2008 à espera de penitências menores pelo acerto precoce. Apenas mais uma constatação dos dias de ontem, hoje e amanhã. O ser humano, no geral, só dá valor às pessoas, emoções e situações da vida depois que as perde. A falta de um familiar, amigo, emprego ou animal de estimação é que acende a luz vermelha.

É claro, meu leitor, que não cheguei a esta conclusão ao acordar. Nos últimos meses, principalmente, um acúmulo de coincidências fermentou a minha teoria. Para poupá-los de detalhes íntimos (hehehe) vou falar apenas de três fatos sobre os afetos não demonstrados. Quem me lê, com freqüência, sabe da enorme saudade do meu irmão caçula Luís, Dedé, ou Dédi, que faleceu em maio de 2003. E das inúmeras vezes em que reclamei a sua ausência desde então, pedi seu conselho em decisões difíceis por telepatia, imaginei que ele me guiava com sua sabedoria e parcialidade. 

Sempre que pude, enquanto era vivo, distribuí ternura e carinho nas mais variadas formas para o Dedé. Nunca deixei de expressar a minha dedicação e predileção (tomara que o mano e a irmã não sejam meus leitores!!!). E, de certa forma, ele me mandava sinais de que entendia tanto amor. Afinal, fui quase sua babá nos primeiros anos de vida, porque minha mãe cuidava do outro filho, um ano mais velho. No encerramento do Ensino Fundamental da Gabriela Martins Trezzi, minha filha e afilhada do Dedé, queria muito que ele estivesse e amaldiçoei ainda assim às vezes em que não fui mais explícita no meu amor.

Da Saudosa Maloca, nome carinhoso dado aos integrantes da Tuma 79/1 da Famecos (Comunicação Social da PUCRS), mantive uma amizade que brotou no primeiro olhar com duas amigas essenciais nas descobertas e ritos da fase universitária. O tempo, senhor de costas largas, tornou mais esporádicos os nossos encontros, limitados aos aniversários, casamentos e nascimento de filhos. Quando a turma decidiu se reencontrar, em doses homeopáticas, em 2006, ficou visível o nosso engajamento. Como se os anos não tivessem calado nossas vozes e nada mais precisava ser dito. Só o recomeço.

Numa situação de doença, recebi o apoio surpreendente da Neneca, uma delas, e acho que ainda não falei para ela coisas banais como: “você foi mais do que uma amiga, você me envolveu, me acarinhou, tem uma parte minha junto da tua vida”. E, agora, diante da possibilidade da Lessinha, a outra do trio, partir para outros pagos e experimentar novos caminhos, quero dizer como vou sentir a falta dela, como ela é indispensável na torcida tricolor, nas caronas (bah, mas que interesseira). E me sinto como o Caio Fernando Abreu, no conto “Para uma avenca partindo”, com tanto para falar mas… o avião já vai sair.

Pois, a Gabriela anda tristonha ou radicalmente introspectiva (o que não é normal) depois que caiu a ficha e percebeu um loteamento de amigas do seu seleto grupo de hiper especiais, a partir de 2009, quando nem todas optaram em permanecer no colégio. De umas oito (acho eu), com certeza quatro deverão trocar de escola no Ensino Médio e nem mesmo a proximidade do aniversário de 14 anos serve de estímulo para as gargalhadas sem noção da minha filha. Como ela aprendeu que devemos amar sempre quem nos ama e demonstrar o sentimento, anda inventando mil coisas para reunir a pequena turma.

E daí, ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar. Sim, Zeca Baleiro cantando. Que não canso de beijar e dizer para a Gabriela, Neneca e Lessinha como elas são legais, que bom que fazem parte da minha vida, que ótimo que são personagens da minha história, que show que já temos um passado e talvez um futuro. E você, já disse eu te amo hoje?

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.