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Voltei a cantar

No início, o cenário era formado apenas por um violão à espera de alguém que lhe desse vida e música. Tímido, o instrumento estava …

No início, o cenário era formado apenas por um violão à espera de alguém que lhe desse vida e música. Tímido, o instrumento estava perdido, no meio do palco do Teatro do SESI, aguardando para embalar o enredo de pelo menos 29 músicas que mais tarde, quebrado o gelo entre platéia e cantor, sairiam melodiosamente da voz de Chico Buarque de Hollanda. A produção impecável. Os músicos idem. E um mapa desenhando com contornos de néon parte do Rio de Janeiro balançava no alto do palco do teatro. Depois de quase duas horas de ouvir Chico cantar no show “O Carioca”, não há como negar, o menino dos olhos cor de ardósia alcançou o auge da maturidade artística.

Ao abrir o show com a música “Voltei a Cantar”, de Lamartine Babo, Chico faz uma espécie de pacto com o público, que, imediatamente, perdoou o ídolo pela ausência dos últimos anos. E mostra por que, mesmo afastado dos palcos, continua insuperável e mais perfeito (se isso ainda é possível, papo de tiete). O CD “O Carioca”, que serve de sustentação para parte das músicas do show, marca o retorno do Chico  sofisticado em harmonia e melodia e com uma influência despudorada da literatura no seu trabalho como letrista. Um presente para seu fã clube que assistiu, nos últimos 30 anos, somente quatro temporadas: Chico e Bethânia” (1975), “Francisco” (1988), “Paratodos” (1994) e “As Cidades” (1999).

Conhecedor profundo, escrachado e declarado da alma feminina e de todos os truques que uma mulher sabe utilizar na conquista, especialmente nas relações atuais, o compositor tudo de bom abusa dessa qualidade e destila sua sabedoria na música “Porque era ela, Porque era eu”. Sem fitar muito a volumosa platéia feminina presente ao show, Chico sussurra: “eu não sabia explicar por que nós dois, ela mais eu, por que eu e ela, não conhecia poemas, nem muitas palavras belas, mas ela foi me levando, pela mão”. A platéia enlouquece quando ele entoa “Sempre”. E o dono da voz diz “os teus lábios em flagrante serão meus ainda e sempre”.

Quando o clima está mais quente, já existindo uma perfeita integração entre público e artista, ele se permite canções que não constam do repertório do CD “Carioca”, lançado em maio do ano passado. Aí, então, a notícia carece de exatidão  e é preciso muita calma nesta hora. Simplesmente porque Chico, que completa 63 anos na mais perfeita forma no dia 19 de junho, é imbatível na arte de falar sobre a beleza, o desencanto, a traição, o sexo, o amor das mulheres. Por isso, ele canta “Deixa a menina em paz” (1980); “Morena de Angola” (1980); “Ela é dançarina” (1981);  “As vitrines” (1981); e outras mais. E quem nunca sofreu por amor ?

Um desafinado coro de mulheres chorando ganha força aos primeiros acordes de “Mil perdões” (1983), e segue com novas adeptas com “Palavra de Mulher” (1985) e “Eu te amo” (1980), a minha preferida, conforme já havia confessado em outras oportunidades. Você, leitor internauta, não está pensando que eu contive as lágrimas ao ouvir o bom moço dizer “Se nós nas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu devo seguir. Se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato inda pisa no teu”. Isso é genial demais.

Despretensiosamente, ele canta mais quatro músicas atendendo aos gritos da platéia. No final do show, o cenário ficou formado por um violão que ganhou vida, um compositor tímido visivelmente emocionado com o carinho dos fãs, mas contido e por diversas vezes sem saber onde colocar as mãos, e uma legião de pessoas agradecendo a volta do malandro. Se ele voltou a cantar porque sentiu saudade do tempo em que andava pela cidade, com sustenidos e bemóis, desenhados na sua voz, eu declaro “que vou voltar, haja o que houver, eu vou voltar e assistir outros shows, palavra de mulher, eu vou voltar, posso até sair de bar em bar, falar besteira….”

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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