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Agência Lupa aponta que Rússia opera redes de influência na América Latina

Estudo do Observatório Lupa revela propaganda ideológica, desinformação e campanhas digitais

O relatório aponta como canais russos passaram a ocupar espaços deixados por veículos tradicionais em ambientes digitais altamente polarizados. - Crédito: Reprodução/Agência Lupa.

O relatório inédito produzido pelo Observatório Lupa – núcleo de pesquisas da Agência Lupa – em parceria com a LatamChequea e o Foreign Policy Instruments da União Europeia, mostra como a Rússia estruturou um ecossistema de influência em pelo menos 13 países da região. O levantamento aponta estratégias como propaganda ideológica, desinformação, diplomacia, campanhas digitais, acordos políticos e econômicos, canais de mídia estatal, redes nacionalistas e até casos documentados de espionagem na América Latina.

Intitulado Operações de influência russa na América Latina, o estudo reúne dezenas de episódios registrados na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Além disso, propõe-se a ser o mais amplo relatório já produzido no Brasil sobre casos documentados de manipulação da informação e interferência estrangeira (Fimi, na sigla em inglês) relacionados à atuação russa no continente.

O relatório foi produzido a partir de uma investigação conduzida pelos pesquisadores Beatriz Farrugia e Maiquel Rosauro, analistas do Observatório Lupa, e faz parte de um alerta central: a desinformação eleitoral e política não é apenas um fenômeno doméstico. As redes internacionais de influência também disputam narrativas, exploram tensões locais e buscam impactar o debate público em países latino-americanos.

“A discussão sobre desinformação costuma ser muito centrada nas dinâmicas internas de cada país, mas o cenário atual mostra que há operações transnacionais de influência atuando de forma organizada, profissionalizada e adaptada aos contextos locais. O relatório demonstra como a Rússia vem construindo, ao longo dos anos, uma estratégia consistente para ampliar sua presença narrativa e política na América Latina”, afirma Beatriz Farrugia.

Um ecossistema de influência adaptado à América Latina

O relatório evidencia que a estratégia russa não se limita à reprodução de discursos oficiais de Moscou. A atuação inclui a adaptação de narrativas ao contexto político latino-americano, explorando sentimentos antiamericanos e anti-imperialistas, críticas à influência europeia, crises institucionais locais, polarização política e desconfiança em relação à imprensa tradicional

Além disso, mostra-se que a presença russa se fortaleceu especialmente a partir da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, quando campanhas de propaganda passaram a operar de maneira mais intensa em redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas alternativas de vídeo. Além da desinformação sobre a guerra, foram identificadas operações relacionadas a temas como vacinas, política internacional, democracia, soberania nacional, sanções econômicas, eleições e disputas geopolíticas.

Entre os casos documentados estão conteúdos que buscavam desacreditar a cobertura da imprensa ocidental sobre a guerra na Ucrânia, narrativas que apresentavam a Otan como responsável pelo conflito e campanhas digitais que amplificam discursos antiamericanos em países latino-americanos. O relatório também cita a circulação coordenada de conteúdos sobre a vacina russa Sputnik V durante a pandemia, muitas vezes acompanhados de ataques a imunizantes desenvolvidos por laboratórios ocidentais.

O relatório também aponta como canais russos passaram a ocupar espaços deixados por veículos tradicionais em ambientes digitais altamente polarizados, utilizando formatos mais agressivos de distribuição de conteúdo, linguagem emocional e estratégias coordenadas de amplificação. Os veículos ligados a Moscou passaram a investir fortemente em formatos de vídeo curto, transmissões ao vivo e conteúdos voltados às redes sociais, replicados por influenciadores e ecossistemas ideologicamente alinhados. Em alguns casos, conteúdos originalmente publicados por RT en Español ou Sputnik Mundo foram reutilizados por páginas latino-americanas sem identificação da origem estatal russa.

Brasil é um dos principais focos do levantamento

O Brasil ocupa um papel relevante no relatório, tanto pela dimensão de seu ambiente digital quanto pela importância geopolítica do país na América Latina. O estudo menciona episódios em que conteúdos pró-Rússia contendo desinformação e propaganda circularam amplamente em grupos de Telegram, canais do YouTube e redes sociais brasileiras após o início da guerra na Ucrânia, muitas vezes com alegações enganosas sobre laboratórios biológicos, sanções econômicas e supostos interesses ocultos dos Estados Unidos no conflito.

O levantamento destaca ainda a presença de canais russos voltados especificamente ao público brasileiro, como Sputnik Brasil, além da circulação recorrente de conteúdos alinhados à Rússia em redes sociais e aplicativos de mensagens. Os pesquisadores analisam também como as narrativas internacionais são frequentemente incorporadas ao debate político nacional, especialmente em ambientes de forte polarização ideológica. Em alguns episódios, conteúdos originalmente produzidos por estruturas de propaganda russas foram reinterpretados por atores locais e reutilizados em disputas internas brasileiras. 

Para Beatriz Farrugia, o estudo ajuda a mostrar que a interferência estrangeira não é um tema abstrato nem distante da realidade latino-americana. “Estamos falando de campanhas concretas, documentadas e adaptadas às dinâmicas políticas locais. O primeiro passo para enfrentar esse tipo de operação é compreender como ela funciona”, conclui.

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