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Câmara de Porto Alegre aprova, por unanimidade, lei redigida pelo ChatGPT

Embora seja de autoria do vereador Ramiro Rosário (PSDB), uma lei aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Porto Alegre (CMPA) e sancionada pelo prefeito Sebastião Melo (MDB), foi redigida pelo ChatGPT. No entanto, nenhum dos parlamentares sabiam da ação, que só foi descoberta, após o pessedebista revelar o fato em uma publicação no Instagram no final desta quarta-feira, 29.

De acordo com Ramiro, a ação faz parte de sua defesa ao uso da Inteligência Artificial (IA) para trazer mais qualidade e transparência ao setor público, além da diminuição de custos. “A lei é bem comum, impede a cobrança por parte da prefeitura a hidrômetros – os relógios de água – que fossem furtados. A questão é que os equipamentos eram instalados no lugar em que o poder municipal queria e caso fosse roubado, o cidadão é que precisa arcar com a reposição da peça. O que é um verdadeiro absurdo”, disse, em vídeo. 

A partir disso, Ramiro pediu a IA que escrevesse um Projeto de Lei Complementar que impedisse a cobrança. “Ela construiu o texto em segundos, inclusive a justificativa. Além disso, por conta sugeriu a melhoria de um artigo da legislação original que diz que a prefeitura não pode cobrar o cidadão pelo período em que o hidrômetro não tiver sido instalado”, completou. 

Opiniões divididas

De acordo com Paula Beckenkamp, colunista de Coletiva.net e especialista em Direito Digital, o acontecimento vem dividindo a opinião de juristas. “Por um lado, há os entusiastas que defendem que a IA pode gerar textos mais seguros, quando são fornecidos os comandos corretos e a partir de dados criteriosamente fornecidos. Para esse grupo, o autor da lei não foi o ChatGPT, mas o próprio vereador”, disse.

Ainda segundo a advogada, existem aqueles que alertam para os riscos de deixar a cargo da tecnologia uma responsabilidade que deveria ser do parlamentar. “A ferramenta facilitadora, segundo alguns, pode levar a irresponsabilidades como a redação de Projetos de Lei que serão apresentados para votação sem sequer ter passado por uma revisão mínima antes, já que diversos políticos se elegem alardeando a quantidade de textos redigidos”, avaliou. 

Por fim, Paula também suscitou a importância “de um fato não levado em consideração pelo autor do projeto: o respeito à transparência”. “Esse princípio rege toda ação dos agentes públicos e é uma das bases da Lei da Transparência e Lei Geral de Proteção de Dados e do PL que prevê a regulação do uso da IA no Brasil. Se o vereador tivesse respeitado esse pilar básico, nunca poderia deixar para revelar que a redação da norma foi dada pelo ChatGPT após a sua sanção. Tal postura fere o ideal da transparência e torna a lei passível de revogação”, destacou. 

O que diz a CMPA

Em resposta à reportagem de Coletiva.net, o departamento de Comunicação da CMPA informou, em nota, que a lei não burlou nenhum processo do rito legislativo, tendo sida produzida pelo gabinete do vereador, protocolada, analisada e corrigida pela Diretoria Legislativa e pela Procuradoria da Casa, pelas comissões, votada e aprovada em plenário. “Sendo assim, e por não haver nenhuma legislação que proíba ou regule o uso da Inteligência Artificial no processo de elaboração de normas, a lei em questão é regular, estando em vigor após a sanção pelo prefeito”, comunica.

A Lei

A Lei Complementar 993/2023 protocolada por Ramiro visa modificar a Lei Complementar 170/1987, que prevê a proibição da cobrança do serviço de troca de hidrômetro furtado por parte da prefeitura e obrigando o Departamento Municipal de Águas e Esgoto (DMAE) ser inteiramente responsável pelos custos de instalação e manutenção de um novo equipamento. Além disso, a substituição do acessório deverá ser realizada em, no máximo, 30 dias a partir da comunicação do delito. O texto está em vigor desde a última quinta-feira, 23.

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