A jornalista e escritora Karla Monteiro detalhou, na Coonline da última semana, os bastidores dos seis anos de pesquisa que deram origem a ‘Brizola: Vol. 1: Lobisomem contra o império’. Durante a conversa, ela abordou o trabalho de reconstrução da trajetória de Leonel Brizola e o acesso a documentos de órgãos de inteligência. “Fazer biografia é um quebra-cabeça. Você vai atrás, acha os pedacinhos aqui e ali e vai montando”, resumiu.
Publicado pela Companhia das Letras, o primeiro volume acompanha a vida do político desde a infância até o retorno do exílio, em 1979. A continuidade, ainda em produção, será dedicada à fase vivida no Rio de Janeiro. Segundo Karla, a previsão é concluir o segundo livro dentro de um ano e meio a dois anos.
“São tantos Brizolas”, observou a escritora. Na avaliação dela, o personagem apresentado no primeiro volume difere daquele que se consolidaria posteriormente no Rio de Janeiro. A autora identificou, nos anos anteriores ao exílio, um político influenciado pelas revoluções latino-americanas e pelo nacionalismo, mas capaz de estabelecer alianças pragmáticas sem abandonar suas convicções. “Brizola gostava de poder, acho que isso não tem dúvida, mas ele queria o poder para realizar as coisas que pretendia fazer”, afirmou.
Documentos revelaram vigilância sobre Brizola
Parte significativa da pesquisa foi realizada em documentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), do Serviço Nacional de Informações (SNI) e do Centro de Informações do Exterior (Ciex). Karla estima ter encontrado pelo menos 10 mil páginas relacionadas a Brizola nos arquivos norte-americanos.
O conteúdo, contudo, precisou ser confrontado com outras fontes. Karla encontrou, por exemplo, relatos de um suposto encontro entre Brizola e Che Guevara na fronteira do Uruguai com o Paraguai. Após consultar um diplomata cubano e comparar informações, ela concluiu que o episódio não seria possível. “Você tem que ir peneirando”, explicou.
Apesar da extensão da pesquisa, Karla afirmou que o trabalho não recebeu bolsa ou patrocínio. A escritora contou com um adiantamento da editora, suficiente para aproximadamente dois anos, e conciliou a produção da obra com outros projetos profissionais durante os quatro anos seguintes. “Biografia é um sacerdócio. Você trabalha para poder trabalhar na biografia”, ressaltou.
Confira o episódio completo:

