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Dia do Orgulho LGBTQIA+: comunicadores gaúchos pedem mudanças reais no mercado

Ao Coletiva.net, profissionais revelam as dificuldades e projetam como avançar

Propagandas e ações sobre o Dia do Orgulho LGBTQIA+ ganham TV, rádio, jornal e internet em junho, mês dedicado à causa. Porém, uma questão levantada em uma conversa entre o publicitário Juliano Corbetta, e amigos de Comunicação e Moda, intriga: quantas destas campanhas são produzidas por equipes queer? Foi a partir daí, que o gaúcho criou o ‘Manual #pride para agências e marcas’, pautando o diálogo sobre como ter um ambiente corporativo mais diverso. 

Corbetta saiu do Rio Grande do Sul há duas décadas, quando o tema ainda não era debatido no Estado, conforme contou ao Coletiva.net. Mas, em sua construção profissional, em Nova York e, agora, em São Paulo, entendeu a relevância do mercado gaúcho, por atender ao País inteiro, e ressaltou que, para mudar, é importante admitir o problema: “Temos racismo, transfobia, homofobia em nosso tecido, temos que reconhecer que estão lá. Principalmente no Sul”.

A ótica do editor da Made in Brazil sobre a falta de inclusão e diversidade no mercado é corroborada por dados. Um relatório do coletivo #VoteLGBT, feito no ano passado com quase 10 mil pessoas, sendo 13,52% delas do Sul, apontou que três em cada 10 dos desempregados queer já estão sem trabalho há um ano ou mais. Segundo a consultoria latino-americana Mais Diversidade, 65% das organizações não têm um programa de diversidade e inclusão em sua estruturação.

As dores diárias

As dificuldades enfrentadas na rotina dos profissionais queer vão além do desemprego e dos comentários preconceituosos quando conseguem se inserir no mercado, partem do básico. “Expressarmos a nossa existência como uma pessoa LGBTQIA+ já traz consigo um desafio nato”, explicou à equipe do portal a jornalista Carol Sanches. O publicitário Gregório Leal descreveu: “É ter a qualidade do seu trabalho questionada, é perder oportunidades, é ser estigmatizado”.

Questões estruturais e de protocolos de atendimento são outras barreiras comuns. Saber lidar com a diferença entre o nome que o profissional tem na identidade e seu nome social, por exemplo, é um problema apontado por Corbetta. O também publicitário Gabriel Besnos corroborou e acrescentou: “No caso de pessoas trans, é preciso que haja um acolhimento acerca das formas e pronomes de tratamento, nome, além do uso do banheiro, por exemplo”. 

Placebo

“Transformaram isso em um Dia dos Namorados. Não é sobre produto”, afirmou Corbetta, ao destacar que efetivar a diversidade nas empresas vai além da veiculação de campanhas e comerciais para vender sua marca em junho. A situação apontada pelo profissional, é conhecida pelo termo diversitywashing (lavagem de diversidade, em tradução livre), escrito pela consultora de diversidade Liliane Rocha.

Ao Coletiva.net, Gabriel declarou que,“de forma geral, parece que há um receio de ‘assumir bandeiras’”, sendo algo muito inicial, em poucas agências. Na mesma linha de raciocínio, Gregório admitiu que “estamos longe do ideal, ainda”, quando o assunto é a diversidade na prática. Para os meios de Comunicação gaúchos, Carol deu o recado: “Empresas, implementem dentro da suas culturas. Não é só lacrar para fora, mas lacrar pra dentro também!”.

Remédios possíveis

Os profissionais gaúchos não apontam apenas o problema, sabem exatamente indicar os principais passos para resolvê-los. Partindo da importância de ter a comunidade queer inserida nas organizações, pensando as campanhas. “É preciso que a mesa vire! Se quer falar de diversidade, tem que chamar uma equipe inteira LGBTQIA+”, argumentou Corbetta. E Carol complementou: ‘É necessário mais mulheres, mais negros, mais LGBTQIA+, mais pessoas com deficiência e todas as intersseccionalidades possíveis”.

Na Bistrô, agência de Gabriel, ele salientou que mantêm uma média atualizada da diversidade no site, a partir de autodeclaração da equipe. Os índices são medidos semestralmente. A empresa conquistou a certificação Great Place To Work, com nota 100 a partir de perguntas como “posso ser eu mesmo por aqui?” e “as pessoas aqui são bem tratadas independentemente da sua cor ou etnia e de sua orientação sexual?”. 

Para Carol, os desafios diários de ser uma comunicadora queer são amenizados pela forma com que a diversidade é trabalhada no conglomerado midiático em que atua. “Tenho sorte de estar em um ambiente em que posso falar abertamente sobre quem sou”, afirmou, admitindo: “Mas não é fácil não hein!”. Ela salienta que o próprio grupo reconhece a dificuldade e possui núcleos de Diversidades, Empoderamento Feminino, entre outros, para auxiliar e fomentar a temática. 

Na HOC – House of Creativity, onde Gregório é diretor de Criação, ele garante que, partindo da ideia de que a criatividade está diretamente ligada à diversidade,  buscam sempre ter uma equipe plural e diversa: “Com mulheres (cis e trans), negres, PNEs… enfim, todo mundo”. Ele explica que o processo não é simples, visto que, por terem mais oportunidades, o perfil da maioria dos currículos que chega é de “homem, branco, hétero, cis, católico e classe média/alta”. É preciso buscar especificamente por profissionais de outras etnias, orientações sexuais, identidades de gênero e níveis socieconômicos.

O 28 de junho relembra a violência da polícia sofrida por frequentadores do bar LGBTQIA+ Stonewall Inn, em 1969, em Nova York e como a comunidade queer se levantou em luta contra o caso. Mais de meio século depois, a data precisa marcar algo maior do que palavras e produtos. Os comunicadores concordam que a diversidade precisa sair das páginas e telas para a estrutura real das empresas, durante os 12 meses do ano. 

Diversidade na linguagem*:

L (Lésbica) – Mulher que é atraída afetiva e/ou sexualmente por pessoas do mesmo sexo/gênero (cis ou trans).

G (Gay) – Pessoa do gênero masculino (cis ou trans) que tem desejos, práticas sexuais e/ourelacionamento afetivo-sexual com outras pessoas do gênero masculino.

B (Bissexual) – Pessoa que se relaciona afetiva e sexualmente com pessoas de ambos os .sexos/gêneros

T (Travesti/Transexual/Transgênero) – Travesti: construção de gênero feminino,

oposta ao sexo biológico, seguido de uma construção física de caráter permanente,

que se identifica na vida social, familiar, cultural e interpessoal, através dessa identidade; Transexual: Pessoa que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento; Transgênero: Terminologia utilizada para descrever pessoas que transitam entre os gêneros.

Q (Queer) – Pessoas que consideram os termos lésbica, gay, e bissexual como rótulos que restringem a amplitude e a vivência da sexualidade. Utilizado por

alguns para descrever sua identidade e/ou expressão de gênero. 

I (Intersexual) – Termo guarda-chuva que descreve pessoas que nascem com anatomia reprodutiva ou sexual e/ou um padrão de cromossomos que não podem ser classificados como sendo tipicamente masculinos ou femininos.

A (Assexual) –  Indivíduo que não sente nenhuma atração sexual, seja pelo sexo/gênero oposto ou pelo sexo/gênero igual.

+O símbolo diz respeito à inclusão de outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero.

*Com informações de manual da Aliança Nacional LGBTI e da GayLatino, em parceria com outras entidades.

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